|    26 set 2016

A música incidental de Mozart

No sétimo capítulo de nossa série dedicada a Mozart, trazemos sua música para ser dançada – cinco contradanças, uma obra para teatro e dois balés.

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* por Paulo Sérgio Malheiros dos Santos

 

Mozart compôs música de dança desde os cinco anos, incluindo nove pequenos minuetos transcritos pelo pai no álbum de partituras de sua irmã Nannerl. Mas foi a partir dos treze anos que começou a escrever música para ser dançada – dedicada ao Carnaval em Salzburgo –, atividade que manteve durante toda a vida. Compôs cerca de duzentos títulos isolados, sem contar os minuetos e outros movimentos de dança integrantes de suas sonatas, quartetos e sinfonias. Era ele próprio um entusiástico dançarino. Em uma carta do começo de 1783, conta ao pai como comemorou seu aniversário: “Dei um baile em casa; começamos às seis horas da tarde e terminamos às sete. O quê? Somente uma hora! Não, não… às sete da manhã”.

 

Para festas como essa, as danças eram apresentadas em sua habitual formação de câmara – o trio de cordas formado por dois violinos e baixo. A orquestração posterior, com o acréscimo dos instrumentos de sopro e percussão, mantinha a seção das cordas sem as violas. As partes centrais frequentemente incluíam instrumentos exóticos como gaitas de foles, cornetas de postilhão ou guizos de trenós.

 

Na década de 1780, em Viena, a dança era um divertimento social muito popular. Sob o reinado liberal de Josef II, os bailes oficiais foram abertos a todas as camadas da sociedade – iniciava-se, então, a longa associação de Viena com a dança. Patrocinada pela corte, a temporada do Carnaval acontecia de janeiro até a Quaresma. A Mascarada constituía o ponto alto da estação, atraindo pessoas que podiam se divertir incógnitas, sob o disfarce das fantasias.

 

Também era uma fantasia o título de Kammermusicus oferecido a Mozart em 1787 – na verdade, o compositor recebia honorários exclusivamente relativos às danças do próximo Carnaval, geralmente compostas durante o dezembro anterior. Conforme o planejamento financeiro da corte, tratava-se de um artifício para impedir que um músico tão famoso abandonasse Viena. Não lhe encomendavam óperas ou sinfonias, e ficou célebre o comentário de Mozart ao receber seu primeiro pagamento: “Demasiado para o que faço; demasiadamente pouco para o que eu poderia fazer”. Entretanto, compor danças nunca lhe pareceu ocupação secundária; ele a encarava com seriedade. Dedicou-se especialmente a quatro gêneros: as Marchas frequentemente tinham caráter militar. O aristocrático Minueto, destinado a morrer com o Antigo Regime, ainda guardava muito do seu refinamento e formalismo bicentenários. Mais vigorosas, as Danças alemãs ou Ländler dançavam-se aos pares, com maior contato físico, saltos e batidas de pé. As populares e antigas Contradanças – cujo compasso binário contrastava com o ternário dos minuetos e das Ländler – foram importadas da Inglaterra. O nome se originou de Country dance, traduzido contredanse para o francês (franglais) do século XVII.

 

É interessante observar o uso dessas danças nas três últimas sinfonias de Mozart. O movimento Finale da Sinfonia nº 39 tem o espírito de uma contradança, enquanto o Minueto da mesma sinfonia é uma dança alemã. Já o Minueto da Sinfonia Júpiter é um verdadeiro minueto, enquanto o da Sinfonia nº 40 foge a qualquer convenção, com sua irregularidade métrica e rica escrita contrapontística.

 

As cinco Contradanças K. 609 tradicionalmente se enquadram no ano de 1791, entre as últimas escritas por Mozart. Outros estudiosos sugerem 1787 e, nesse caso, seriam as primeiras do compositor como Kammermusicus. A de nº 1, em Dó Maior, traz o tema Ne più andrai de As bodas de Fígaro, muito conhecido em Viena. A segunda dança é em Mi bemol maior. Os tambores são muito marcantes nas danças 3 e 4. A quarta, em compasso ternário, é realmente um Ländler com três alternativos (trios), respectivamente em Dó, Fá e em lá menor. A última da série, composta anteriormente em Salzburgo, recebeu o título de Les filles malicieuses e, reorquestrada, foi registrada como K. 610. Possui um curioso efeito de gaitas de foles na seção central.

 

Ao contrário das danças para bailes, o Grand Ballet – como cultivado na corte francesa do século XVII – estava fora de moda no século da Revolução Francesa. Apenas duas composições de Mozart para balé são conhecidas integralmente: Les Petits Riens e Idomeneo.

 

Quando residiu em Paris, Mozart planejou compor uma ópera em francês, Alexandre et Roxane, confiante no apoio decisivo do célebre bailarino e coreógrafo Jean Georges Noverre. Para esse grande reformador da dança Mozart escreveu, junto com outros compositores, Les Petits Riens, interlúdio a ser dançado em uma ópera de Niccolò Piccinni. Com a música e a coreografia atribuídas a Noverre, o balé obteve sucesso. Dos 21 números que o compõem, apenas a Abertura e oito peças são com certeza de Mozart. E elas demonstram com que originalidade ele conseguiu apropriar-se do estilo galante francês.

 

Aos 25 anos, em Munique, o compositor escreveu outro balé, agora para uma criação própria, Idomeneo, sua terceira e mais importante investida na opera seria, com enredo histórico ou mitológico. Idomeneo representou um grande impulso na produção mozartiana, síntese muito particular de marcantes experiências: a ópera séria italiana, as conquistas orquestrais de Mannheim e a influência de Gluck, reminiscência da estação parisiense. Apesar do sucesso da estreia, a obra passou por longo e lamentável período de esquecimento. Só após a Primeira Guerra, Richard Strauss, quando dirigia a Ópera de Viena, redescobriu por acaso a partitura. Os cinco números dançantes encerram festivamente Idomeneo, com uma grande celebração popular.

 

Ao contrário de sua intensa e constante dedicação à ópera, Mozart escreveu apenas uma música para teatro: Tamos, rei do Egito. Os coros e números instrumentais para o drama de Tobias von Gebler, compostos no final de 1773, foram retrabalhados em 1779 por ocasião da reapresentação em Salzburgo. O exame comparativo das duas versões permite avaliar o imenso progresso realizado entre elas. Ciente da superioridade de sua música sobre o texto, Mozart procura libertá-la da tendência estritamente programática. Assim, à parte os três magníficos coros, os quatro números puramente instrumentais soam, em sequência, como movimentos de uma pequena sinfonia.

 

* Pianista, Doutor em Letras, professor na UEMG, autor dos livros Músico, doce músico e O grão perfumado – Mário de Andrade e a arte do inacabado. Apresenta o programa semanal Recitais Brasileiros, pela Rádio Inconfidência.

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