|    12 set 2015

Beethoven em Concertos

Dentre as obras acabadas de Beethoven, há poucas para orquestra e solistas. Foi especialmente sobre os concertos que o compositor Guilherme Nascimento escreveu este texto para nossos sábados dedicados ao gênio de Bonn.

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por Guilherme Nascimento *

 

Na época de Beethoven, dois eram os espaços disponíveis em Viena para apresentações musicais públicas: os teatros, destinados às óperas; e as igrejas, que abriam suas portas para apresentações de obras sacras. Como não existissem salas de concerto, as apresentações públicas de música instrumental, chamadas de Academia, aconteciam, geralmente, em teatros, cassinos ou apartamentos particulares.

 

Nessas Academias, um gênero gozava de destaque, pelo seu caráter quase sempre espetacular: o concerto. O concerto é um tipo de composição surgida na Itália por volta da segunda metade do século XVII que consiste, grosso modo, em um diálogo musical entre um ou mais solistas e a orquestra. Os concertos eram a via perfeita de apresentação dos talentos de um músico, tanto como compositor e como intérprete. Se como compositor o concerto o ajudava a abrir as portas da fama, o sucesso adquirido como intérprete, a partir do concerto, lhe abria as portas dos salões aristocráticos, assim como efetivas possibilidades de uma renda estável como professor de música, para os membros da alta sociedade.

 

A partir do século XVIII praticamente todo compositor soube valer-se das potencialidades artísticas e profissionais do concerto. Com Beethoven não foi diferente. Mas, se no início do século XIX a aristocracia ainda exercia uma grande influência na formação do gosto do público, a classe média, que constituía uma grande parcela da plateia, já vinha conseguindo fazer valer suas preferências. Beethoven era bem consciente das oscilações do público em Viena. Algumas de suas obras, tais como a Sinfonia Eroica, foram compostas tendo o autor em mente, em primeiro lugar, algum membro da aristocracia que detinha, por algum tempo, os direitos de execução privada da obra. Quanto aos concertos, foram, de forma geral, compostos para o consumo da classe média.

 

Das obras acabadas de Beethoven, restaram-nos, para solistas e orquestra, apenas cinco concertos para piano, um concerto para violino (Beethoven criou também uma versão desse concerto para piano e orquestra), o Tríplice concerto – para violino, violoncelo e piano solistas e orquestra – e dois romances para violino e orquestra.

 

Sua opção preferencial pelos concertos para piano se explica pelo fato de ter sido o piano seu instrumento de predileção, através do qual mais integralmente Beethoven se expressava.

 

Curiosamente, além de serem pouco numerosas, trata-se de obras compostas quando Beethoven era ainda relativamente jovem, entre os anos 1789 e 1810, isto é, dos dezenove aos quarenta anos de idade. Não se deve, com isso, inferir que ele não apreciasse o gênero, ou que tenha deixado de apreciá-lo com a idade.

 

É bom lembrar que Beethoven ficou surdo relativamente cedo, havendo suas aparições como solista, por essa razão, se tornado cada vez mais escassas. Os esforços do compositor se voltaram então para os gêneros em que o exibicionismo dos solistas cedia lugar ao conteúdo expressivo da obra, tais como a sinfonia e a música de câmara, de modo especial o quarteto de cordas. A música tornava-se mais importante do que o intérprete que a executava.

 

Os dois primeiros concertos para piano foram compostos como veículo para o jovem compositor apresentar-se como pianista virtuoso, tanto em Bonn quanto, mais tarde, em Viena. O Concerto para piano no 2 foi composto em 1789, aos dezenove anos de idade, e o Concerto para piano no 1 em 1797, aos vinte e sete anos –, sendo que a numeração refere-se à data da publicação. É evidente a influência de Haydn e Mozart em seus primeiros concertos, tanto na forma como nos papéis destinados pelo compositor, respectivamente, ao solista e à orquestra.

 

Os dois romances para violino e orquestra (1798 e 1802) serviram a Beethoven como uma importante preparação para o Concerto para violino. Os romances também possuem numeração invertida, assim como no caso dos dois primeiros concertos para piano.

 

A partir do terceiro concerto para piano (1801) a voz interior, muito pessoal, de Beethoven começou a se fazer presente. Embora se trate, ainda, de uma obra dos chamados anos de juventude, as inovações desse concerto fizeram dele um modelo para o gênero, graças ao equilíbrio formal e à associação entre o virtuosismo do solista, que passa a ser o protagonista da cena, e o papel da orquestra, que, com seu sinfonismo exuberante, deixa de ser um mero acompanhador para assumir um papel de destaque no discurso musical.

 

Com o Concerto tríplice (1803), obra contemporânea à Sinfonia Eroica, à Sonata Kreutzer e à Sonata Waldstein, encontramos um Beethoven no início de seus anos de maturidade. Aqui o domínio da forma e a liberdade do criador são evidentes. O século XVIII ficou para trás e poder-se-ia dizer que, em 1803, Beethoven inaugura o século XIX.

 

No ano de 1806 Beethoven compõe dois importantes concertos: o Concerto para piano no 4 e o Concerto para violino (o arranjo, para piano e orquestra, feito pelo próprio Beethoven, data da mesma época, e veio a se denominar Concerto para piano op. 61a). Trata-se de duas obras-primas que se encontram entre as mais importantes do gênero em todos os tempos. Embora extremamente virtuosísticos, o equilíbrio entre solista e orquestra encontra seu ponto alto com estes dois concertos. A estreia do Concerto para piano no 4, em 22 de dezembro de 1808, marca a despedida de Beethoven dos palcos como solista. Sua surdez já se encontrava bem avançada.

 

O Concerto para piano no 5, em Mi bemol, composto em 1810, é seu último concerto. Completamente surdo, Beethoven jamais o executará em público. Aos quarenta anos de idade Beethoven nos presenteia com o mais grandioso, mais imaginativo e mais original de seus concertos. Uma música composta para toda a humanidade. Uma vida dedicada a enriquecer o mundo com uma beleza da qual ele já não pode mais desfrutar.

 

* Compositor, Doutor em Música pela Unicamp, professor na Escola de Música da UEMG, autor dos livros Os sapatos floridos não voam e Música menor.

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