|    12 jul 2017

Um alemão em Londres

Haendel deixou mais de 600 composições. Sua obra monumental contempla todos os gêneros musicais de sua época, da qual realizou verdadeira síntese, fundindo – de maneira muito pessoal – elementos das escolas alemãs, italianas, francesas e inglesas. É a ele que dedicamos o quinto sábado Fora de Série de 2017.

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* Paulo Sérgio Malheiros dos Santos

 

Músico cosmopolita, empresário das próprias obras, Georg Friedrich Haendel (Halle, Alemanha, 1685 – Londres, Inglaterra, 1759) percorreu grandes centros internacionais na busca de um público maior, capaz de sustentá-lo como artista autônomo. Sua obra monumental contempla todos os gêneros musicais de sua época, da qual realizou verdadeira síntese, fundindo – de maneira muito pessoal – elementos das escolas alemãs, italianas, francesas e inglesas.

 

Em Halle, sua cidade natal, Haendel herdou de seu mestre Wilhem Zachau as bases da cultura musical alemã, a técnica do contraponto e da harmonia. Ainda criança mostrou-se notável virtuose como organista e cravista. Entretanto, aos dezoito anos, ele se mudou para Hamburgo, primeira cidade alemã a dispor de um teatro de ópera, gênero que ainda não se desenvolvera plenamente no país devassado pela Guerra dos Trinta Anos. Das cinquenta óperas que Haendel escreveu, apenas quatro destinaram-se a Hamburgo. Mas nessa cidade, onde a influência da música de Lully era forte, o jovem compositor assimilou o refinamento de escrita e o gosto francês pelas formas bem acabadas.

 

Aos 21 anos Haendel partiu para Florença. Tornou-se amigo de Domenico Scarlatti e, juntos, promoveram uma disputa pública pela supremacia nos instrumentos de tecla. Os jurados, em acordo tático, proclamaram Scarlatti insuperável no cravo, enquanto o saxão foi eleito o melhor organista. A Itália marcou a música de Haendel, sobretudo no aspecto melódico – os desenhos de suas melodias, de caráter predominantemente vocal, se desenvolvem com naturalidade e equilíbrio perfeitos.

 

O êxito italiano proporcionou a Haendel reconhecimento internacional. Entre Hanôver e Londres, ele optou definitivamente pela Inglaterra, onde dirigiu a Academia Real de Música e obteve inesquecíveis triunfos; mas, como músico autônomo, também enfrentou rivais implacáveis.

 

Haendel foi, sobretudo, um músico de teatro, e sua instrumentação é concebida como um cenário musical. Mesmo em seus grandes oratórios – gênero que não inclui a representação cênica –, o compositor deixa-se levar pela visão direta dos quadros a retratar. Essa preocupação com a imagem sonora resultou na criação de recursos orquestrais originais. Entretanto, Haendel utiliza, basicamente, a orquestra tradicional de seu tempo, mantendo o modelo italiano de oposição das massas sonoras e a prática francesa de valorização dos trompetes e tímpanos. Em ocasiões específicas, quando escreveu para cerimônias oficiais ao ar livre (como a Música Aquática e a música para os Fogos de Artifício Reais), Haendel ampliou a massa orquestral com grande número de instrumentistas. No Concerto grosso, op. 6, manteve-se fiel ao modelo original de Corelli. Apesar desse aparente retrocesso, os doze concertos deste opus 6 mostram-se infinitamente superiores aos ensaios modernizantes de seus contemporâneos ingleses.

 

A partir de 1741, com a saúde debilitada, Haendel abandonou a ópera, dedicando-se à música instrumental e a seus grandiosos oratórios com texto em inglês, enredo bíblico, belíssimas árias e papel preponderante dos coros (obras-primas de polifonia vocal). Combinação de diversão musical e edificação religiosa, o oratório atraiu a classe média inglesa e, em 1746, o Oratório Ocasional marcou uma nova modalidade de espetáculo – o concerto aberto a todo o público – em substituição ao sistema de assinaturas que privilegiava as classes mais abastadas.

 

A portentosa obra de Haendel nunca sofreu (como aconteceu com a de outros grandes compositores barrocos) a humilhação do esquecimento póstumo. Haydn, Mozart e Beethoven tiveram-no como modelo. E Brahms selecionou, da vasta produção haendeliana para o cravo, a Ária Variada da Lição nº 1 como tema de suas célebres Variações e fuga. A música litúrgica de Haendel – escrita para celebrar as vitórias das armas inglesas, cerimônias de coroação ou enterros reais – pertence ao patrimônio britânico. Muitas árias de óperas e trechos de oratórios tornaram-se populares. O Messias ainda é o número indispensável no repertório das grandes associações corais. Com a partitura de O Messias na mão, Haendel está representado no túmulo erigido em sua memória, de frente para o monumento a Shakespeare, na Abadia de Westminster, panteão dos reis do país que o adotou.

 

* Pianista, Doutor em Letras, professor na UEMG, autor dos livros Músico, doce músico e O grão perfumado – Mário de Andrade e a arte do inacabado. Apresenta o programa semanal Recitais Brasileiros, pela Rádio Inconfidência.

 

Para ampliar o conhecimento

 

Romain Rolland – Vida de Haendel (Atena Editora – 1958)

 

Otto Maria Carpeaux – O livro de ouro da história da música (Edições de Ouro – 2009)

 

CD Handel Water Music – Water Music; Ouverture from the Occasional Oratorio | Haydn Sinfonieta de Viena – Manfred Huss, regente (BIS Records – 2013)

 

CD Handel – Water music; Fireworks Music | Orpheus Chamber Orchestra (Deutsche Grammophon – 2003)

 

CD Georg Friedrich Händel – Concerti Grossi, op. 6 | Combattimento Consort Amsterdam – Jan Willem de Vriend, regente (NorthStar Recording – 2011 – 3 CDs)

 

CD Brahms – Variations and fugue on a theme by Handel e outra | London Symphony Orchestra – Neeme Järvi, regente (Chandos Records – 1990)

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