|    3 mar 2016

Mozart, con affetto

No texto da pianista Berenice Menegale, um pouco da obra e do coração de Wolfgang Amadeus Mozart, compositor que habita os nossos sábados Fora de Série em 2016.

The-fourteen-year-old-Mozart-plays-the-harpsichord-in-Verona-Oil-painting-by-Saverio-dalla-Rosa

por Berenice Menegale*

 

Wolfgang Amadeus Mozart, sempre tão amado, venerado pelos maiores músicos de sua época, única unanimidade na admiração dos grandes mestres que o sucederam, autor de mais de seiscentas obras conhecidas, morreu em Viena na miséria e no abandono, sem completar 36 anos.

 

Nunca serão demasiados os esforços para restaurar-se a verdade a respeito da pessoa do criador, distorcida através do tempo, e para ampliar o conhecimento de sua imensa obra.

 

QUE WOLFGANG, criança de precocidade genial e fascinante personalidade, teria encontrado seu irreprimível caminho na música, mesmo sem a onipresença do pai na infância – é uma evidência. Desde muito cedo, a consciência de seu destino de compositor era claríssima para ele.

 

No entanto, para que absorvesse e praticasse todo o conhecimento musical germânico, foram condições determinantes a orientação metódica e cotidiana do pai – bom músico e pedagogo –, os contatos que teve com a música e os músicos de sua época e, principalmente, sua própria intuição genial. Por esta se explica a facilidade e alegria com que Wolfgang se dispunha a escrever música quando solicitado, ou para seu próprio prazer, e a abordagem de todos os gêneros já na infância. Isso não impedia que, para o instrumentista admirável que já era, fosse insuportável apresentar-se diante de pessoas que ele percebia desinteressadas, que não sabiam apreciar a sua música.

 

AS VIAGENS – não raro decepcionantes do ponto de vista prático do pai e cansativas ao extremo para a criança – foram acima de tudo essenciais para forjar a largueza do espírito de Mozart e permitir sua aproximação de outras escolas, de modo especial a música italiana e a escola de Mannheim – influências fundamentais na elaboração de sua obra –, preservando sempre, contudo, os insumos da escola alemã.

 

É bom lembrar que os trajetos, por mais extenuantes e demorados que fossem, eram apenas os entreatos de longas temporadas que, estas sim, proporcionavam a Wolfgang o tempo de crescer aprendendo, de escutar novas músicas, de ter influências e encontros decisivos.

 

INICIADO EM ABRIL DE 1764, e estando Wolfgang com oito anos, o estágio de dezesseis meses em Londres teve repercussões indeléveis. Wolfgang compôs ali suas primeiras sinfonias, ouviu oratórios de Haendel e assistiu a óperas italianas. Seu contato com Johann Christian Bach – que, antes de ser chamado Bach de Londres, fora o Bach de Milão – foi especialmente afetuoso, além de fecundo pela orientação que desse mestre recebeu. Dele teve as primeiras lições sobre a ópera italiana, mais especificamente sobre a característica ópera buffa napolitana. Aliás, foi de Londres que Leopold escreveu a sua mulher: “ele tem sempre uma ópera na cabeça”, uma demonstração de que já aos oito anos se instalava no espírito de Wolfgang a paixão que viria a ser avassaladora – o teatro musical, o melodrama.

 

O que nos assombra hoje, mais que as habilidades da criança prodígio, é a profundidade com que Wolfgang processava vertiginosamente o seu desenvolvimento e quão reta e certeira foi a sua trajetória.

 

A NARRATIVA das viagens empreendidas por iniciativa de Leopold, contida em suas cartas e nos bilhetes de Wolfgang e da irmã Nannerl, nos leva a conhecer o processo de aprendizado musical – totalmente fora de qualquer padrão –, assim como a formação da personalidade e do coração de Mozart.

 

Surpreende-nos ainda hoje perceber que, irrigada por sua genialidade e suas escolhas, sua obra imortal estava germinando e florescendo, sem desvio, desde os primeiros sons e rabiscos da criança.

 

Quando Leopold dizia que o menino “tinha a música inteiramente na cabeça antes de escrevê-la”, dizia-o não com incredulidade, mas sem compreender bem o que aquilo significava. Sempre foi assim para Wolfgang. Ao final, faltou-lhe força física para terminar o Requiem que desde a data da encomenda trazia acabado na cabeça.

 

AOS OLHOS DA aristocracia e da burguesia europeias, Wolfgang perdia, ao crescer, tanto o charme da precocidade como a perspectiva de celebridade futura. Mas, na verdade, ele crescia em graça e sabedoria, acumulando sem trégua experiências extraordinárias, construindo seu direcionamento estético, confirmando sua vocação dramático-musical, deixando que o coração guiasse as suas escolhas.

 

ESCUTAR E apreciar exemplos de suas músicas nas diferentes idades nos deixa concluir que também o amadurecimento artístico de Wolfgang foi espantosamente precoce e acelerado, como que numa antevisão de quão curto era o prazo que lhe seria dado.

 

A primeira viagem à Itália, que se dá às vésperas de Wolfgang completar quatorze anos, é a primeira que o menino empreende em companhia apenas do pai. As experiências dessa temporada são numerosas e especiais, pelas encomendas que cumpriu e estreou (incluindo a ópera Mitridate Re di Ponto) e pelas ocasiões de mostrar quão excelente músico ele já era. Porém, mais significativos para Wolfgang foram os contatos sérios e proveitosos com músicos do quilate do lendário padre Giovanni Battista Martini (1706-1784), de Bolonha. Para trabalhar intensivamente contraponto com Martini, de quem já ouvira falar por Christian Bach, Wolfgang volta a Bolonha, “a Douta”, onde permanece por três meses. Pode-se imaginar o empenho e a alegria do jovem de quatorze anos por essa estupenda oportunidade. Martini será sempre uma referência musical e afetiva para Mozart.

 

ACOMPANHAR AS vicissitudes da vida de Mozart e ao mesmo tempo seguir o desenvolvimento de sua obra é uma forma de desvendar o seu coração e sua personalidade. Wolfgang, desde que entrara na adolescência, tinha o comportamento de um músico profissional, e como tal foi reconhecido na Itália. Ao mesmo tempo, com sua intuição muito clara sobre o que queria conhecer e aprender, não dissipava as oportunidades. Adquiria o equilíbrio que sempre transpareceu em sua música. Era alegre e afetuoso, desbocado nas brincadeiras e na correspondência, sempre disposto a teatralizar, generoso, dedicado aos amigos e, quanto à música, exigente e responsável. Uma espiritualidade sincera era perceptível em suas atitudes, além de um senso ético profundo que transparece à medida que, na juventude, começa a reagir às fraquezas e às injustiças dos ambientes nos quais convive. Um sinal, dentre muitos, de seu belo caráter e total falta de jactância é que a concessão do diploma honorífico da Academia Filarmônica de Bolonha, após um exame de máximo rigor, jamais foi motivo de alarde ou vaidade por parte de Wolfgang, que se negava a exibi-lo, assim como também recusava usar a insígnia de Cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro, que o Papa lhe concedera. Sua simplicidade não era isenta de firme senso de dignidade. Apelava com energia a seu pai para que não se rebaixasse ao tentar uma oportunidade em favor do filho.

 

WOLFGANG ENTRARA para o serviço do Príncipe-Arcebispo aos treze anos, como organista sem salário. De 1773 até a viagem a Paris, quase não se ausentou de Salzburgo e compôs muita música, já com sua personalidade musical inconfundível bem estruturada.

 

Em 1777 partiu com destino a Paris acompanhado apenas de sua mãe, numa viagem muito atribulada, que se não foi particularmente importante do ponto de vista da carreira de Wolfgang, marcou-se por acontecimentos que o abalaram emocionalmente e que viriam a ter repercussão em seu futuro: o encontro com Aloysia Weber, linda soprano de quinze anos por quem se enamora em Mannheim, sem poder dar continuidade ao romance, e a morte inesperada, em Paris, de sua mãe. Apesar de seu descontentamento com a cidade, compôs algumas músicas importantes, como uma Sinfonia Concertante para Sopros, o belo Concerto para flauta e harpa, Variações e Sonatas para piano – entre as quais a surpreendente e dramática em lá menor e a Sonata em lá maior, célebre pelo rondó alla turca, e várias outras obras. Não é pouca coisa para cinco meses! Na volta a Salzburgo segue o mesmo trajeto e, no reencontro com Aloysia, a moça se mostra indiferente.

 

WOLFGANG, DE NOVO em Salzburgo, é ainda bem jovem. Começa o ano de 1779 compondo a Sonata para piano e violino em si bemol e o Concerto para dois pianos em mi bemol. Em março escreve a Missa da Coroação, sinfonias e cerca de cinquenta obras, a maior parte delas longas e complexas, evidenciando sua evolução técnica.

 

Após um retorno a Munique, aonde foi para montar e estrear com grande sucesso a ópera Idomeneo, e onde escreveu o Quarteto com oboé K. 370, Wolfgang deixa Salzburgo definitivamente. Rebelara-se em episódio recontado à exaustão, para acabar sendo o primeiro músico autônomo da história da música.

 

Instala-se em 1781 em Viena e decide casar-se com Constança Weber, irmã de Aloysia, que será sua companheira até o fim.

 

APENAS DEZ ANOS para viver em Viena, para realizar a sua obra! Viveu – nessa cidade tão alegre e tão triste, tão séria e tão inconsequente – dias de exaltação e de depressão. Teve dias de glória e de penúria. Mas Mozart não expressava com sua música as circunstâncias de sua existência. Revelava, sim, a sua alma. Já escrevera de Munique a seu pai: “Ich bin vergnügt weil ich zu komponieren habe, welche ist doch meine einzige Freude und Passion”. – Estou contente porque tenho o que compor, o que é mesmo a minha única alegria e paixão .

 

Wolfgang compôs nessa década aproximadamente trezentas obras. Podemos dizer sem receio que são trezentas obras-primas. É impossível deixar de citar Don Giovanni, Le Nozze di Figaro, Così fan tutte, O rapto do serralho, A Flauta Mágica; as mais belas e fantásticas sinfonias, numerosos concertos para piano, música religiosa, música maçônica, inúmeros quartetos e quintetos… O Requiem, obra que povoou o espírito de Mozart de lúgubres sensações e que ficou inacabada…

 

TUDO É INSUFICIENTE ou então demasiado e desnecessário quando se trata de falar ou escrever sobre Mozart, tanto sobre a obra quanto sobre seu espírito. Sabemos como lhe foi reconfortante, sempre, a comovente amizade e o afeto que o uniram a Haydn; Mozart jovem, Haydn já músico consumado e célebre – eles tiveram alguns contatos de profunda compreensão e admiração mútua. Mozart se influenciou por Haydn na juventude e Haydn, mais tarde, se deixou conscientemente influenciar por Mozart, o que ele próprio declarava com simplicidade. Em mais de uma ocasião elevou a voz para declarar: – Mozart é o maior compositor que já existiu! Uma dessas vezes foi após a estreia de Don Giovanni.

 

Melhor que ler sobre Mozart é escutar sua música, buscar aquela que não se ouviu ainda, descobrir a beleza incomparável de suas melodias, deixar-se emocionar com a doçura, mas também com a pungência, com tudo o que lhe ia na alma e que se traduz em sua obra. Felizmente existem gravações de, pelo menos, essas cerca de trezentas obras dos últimos dez anos.

 

Por ter vivido na segunda metade do século XVIII, e por ser o menos sectário e o mais aberto dos compositores, o conceito de clássico é insuficiente para a sua música, que, pelo elaboradíssimo uso do cromatismo como elemento expressivo, tem, sem qualquer pretensão revolucionária, conotações românticas e trágicas que aproximam Beethoven de sua obra. Alguns atributos sensíveis a tornam acessível. Na música instrumental, o primeiro, sem dúvida, é a beleza e a perfeição da melodia; outro é o equilíbrio da forma, da instrumentação, a complexa estruturação das vozes. Na ópera, o que mais seduz é a verdade humana das personagens e o sentido do ritmo teatral.

 

Wolfgang Amadeus Mozart é o único grande mestre da música verdadeiramente universal, por ter criado obras-primas, com a mesma grandeza e a mesma dedicação, em absolutamente todos os gêneros musicais.

 

* Pianista, diretora da Fundação de Educação Artística.

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