|    24 out 2016

Mozart na corte

Sempre com a mesma genialidade, Mozart escreveu óperas, sinfonias, concertos e também músicas para embalar a vida social nas altas rodas do século XVIII. É sobre esta última faceta que o pianista, cravista e professor Moacyr Laterza Filho escreveu especialmente para o nosso programa Fora de Série, que em 2016 é dedicado a Wolfgang Amadeus.

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por Moacyr Laterza Filho *

 

[LEIA AQUI sobre este concerto]

No Classicismo, há diversos gêneros musicais que se confundem em forma e estrutura. Eles são uma espécie de válvula de escape da etiqueta solene dos salões aristocráticos ou dos esquemas já pré-definidos da música dramática, mas ainda assim não se veem livres do formalismo que norteia a mentalidade musical do século XVIII: a forma sonata ainda impera na maior parte das vezes, quando não há uma aproximação com a suíte de danças; os procedimentos se mantêm. Conserva-se, geralmente, a estrutura formal do século XVIII, em quatro movimentos, como na sonata, no quarteto de cordas ou na sinfonia. Ainda assim, a funcionalidade dessa música poderia perigosamente a rotular em música ligeira: divertimento, serenata, cassação, notturno, Nachtmusik, ou, ainda no século XVII, Tafelmusik (“música para a mesa”). Em Haydn, por exemplo, divertimento se confunde em nomenclatura com suas primeiras sonatas para piano. O fato é que esse gênero de música difere dos demais, no Classicismo (excluam-se disso a ópera e a música religiosa), apenas pela funcionalidade ou pelo ambiente a que se destinam. Raramente em forma ou em estrutura. Os ambientes externos, as diversões da aristocracia, os prazeres da mesa, tudo, nas altas rodas do século XVIII, era partilhado com boa música. Entende-se, com isso, o porquê de Haendel ter composto a Música para os Reais Fogos de Artifício… Entendem-se, igualmente, os vários divertimenti e serenatas de Mozart, compostos para diversas formações instrumentais.

 

Nesses gêneros, evita-se, via de regra, o uso da intrincada linguagem polifônica, e neles não é raro que se encontrem citações de temas ou canções populares.

 

No conjunto da obra de Mozart, o mais célebre deles é obviamente Eine Kleine Nachtmusik (uma musiquinha noturna… ou, como foi já traduzido, uma pequena serenata noturna). São cerca de duas dezenas de divertimentos e mais de uma dúzia de serenatas, à parte algumas outras obras do gênero.

 

A Serenata K. 239, “Noturna”, foi composta em Salzburgo, em janeiro de 1776. Uma curiosidade é que, no manuscrito, título e data estão grafados na caligrafia de Leopold Mozart. Mas ela tem o diferencial de (fato raro no século XVIII, mas não invulgar no Barroco) ter sido composta para dois grupos instrumentais: o primeiro é formado por dois violinos solistas, primeira viola e contrabaixo; o segundo é composto por primeiro(s) e segundo(s) violino(s), segunda(s) viola(s), violoncelo(s) e tímpanos. Das serenatas de Mozart, talvez essa seja a que se assemelhe mais com a suíte de danças, a despeito de sua brevidade. Não obstante, seu caráter concertante lhe confere um aspecto arcaizante (no procedimento, não no estilo ou na linguagem) raro de se observar no Classicismo. Igualmente raro é o nítido trabalho com o espaço: o diálogo entre dois grupos instrumentais, posto que já explorado desde pelo menos o século XVI, constitui uma clara experiência com efeitos acústicos. Fato importante é notar que o Rondó final insere (ou cita), claramente, algum tema de origem popular.

 

Encomendada para a cerimônia de encerramento do ano letivo da Universidade de Salzburgo, a Serenata em Ré maior K. 320 foi composta e estreada em 1779, quando o compositor ainda aí residia. Na sua instrumentação, que valoriza particularmente determinados instrumentos de sopro, Mozart elabora trechos relevantes para a flauta e o oboé (como no terceiro e quarto movimentos) e inclui inusitadamente partes para o flautim, no primeiro trio do segundo minueto e um solo para a trompa de posta. Em uma época em que o e-mail sequer era concebido e na qual a eletricidade era curiosidade de circo, a chegada e saída dos correios, único meio de comunicação a distância, era um evento importante. Ele era anunciado, dentre outras coisas, por um toque de trompa. Da mesma forma que, em nossas cidades históricas, cada tipo de badalada dos sinos das igrejas tem um significado específico, o toque da trompa de posta era imediatamente reconhecível e distinto do toque da trompa de caça, usado obviamente para as caçadas. Ouve-se esse solo de trompa no segundo trio do segundo minueto, o que conferiu o subtítulo à obra.

 

“Satírica” foi como alguns críticos classificaram Ein Musikalischer Spass (uma brincadeira musical), K. 522, composta em junho de 1787, para duas trompas e quarteto de cordas. Mozart, ao que parece, nunca teve a intenção de satirizar ninguém com essa obra, que, a despeito disso, tem algo de claramente irônico, tanto no tratamento das trompas, quanto no caráter. Vinda de Mozart, essa ironia poderia soar, hoje, ao ouvinte desatento, como uma ousadia profética. Não se trata de nada disso! Mozart era um compositor de teatro, e sua música transpira, em cada poro, a arte dramática, seja em seu aspecto comovente, seja no trágico ou no burlesco.

 

Mozart brinca, aqui, com o próprio sistema tonal, com a quadratura da estrutura melódica clássica, com o estilo concertante, enfim, com todo o mundo musical que ele próprio dominava e em que se inseria!… Brinca, ainda, com a tradição polifônica, em que tinha mestria: basta ouvir suas missas… Ao ouvinte desatento, a primeira audição dessa obra há de causar imediatamente um estranhamento: não será demasiado vislumbrar alguém que imagine que os músicos possam ter se enganado em alguma passagem, ou que as trompas estejam desafinadas. Àquele que tenha alguma formação musical, porém, o resultado dessa obra soa como um paradoxo, aliás bem moderno: ao mesmo tempo elegante e grotesco, como se a maquilagem do século XVIII estivesse borrada, revelando um rosto desgastado. Dissonâncias insólitas, a representação irônica (no sentido teatral do termo) de um frustrado contraponto imitativo, o relevo dado às trompas, que parecem ora perder o siso, ora estar em desalinho com o contexto musical, tudo isso constitui uma grande brincadeira.

 

E ainda assim essa brincadeira soa profética. Os acordes do último movimento o comprovam! Já se disse que o presente é que elabora seus precursores. Na Brincadeira Musical K. 522, o passado se antecipou.

 

* Pianista e cravista, Doutor em Literaturas de Língua Portuguesa, professor da Universidade do Estado de Minas Gerais e da Fundação de Educação Artística.

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