|    14 jun 2016

Mozart, um sinfonista

No quarto concerto dedicado a Mozart, nossa Orquestra traz três amostras da genialidade do compositor enquanto criador de sinfonias. Leia o que Moacyr Laterza filho escreveu sobre o gênero e as obras K. 297, K. 338 e K. 550.

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por Moacyr Laterza Filho

 

Pode-se dizer, sem muito exagero, que a sinfonia, tal como concebida em meados do século XVIII, seja a sonata transportada para o universo sinfônico. É claro que esse universo tem certas demandas específicas e, definido em sua sonoridade pela escola de Mannheim, já havia elaborado certos aspectos idiomáticos próprios. Mas, na forma e na estrutura, não é demasiado generalizador afirmar que a sinfonia clássica seja uma sonata executada pela orquestra sinfônica. Sob um olhar analítico mais cuidadoso, porém, há que se notar algumas questões.

 

Em primeiro lugar, a sinfonia clássica tem pouquíssimo em comum com o gênero homônimo do Barroco. Ali, o termo designava qualquer tipo de composição instrumental, em particular os trechos instrumentais de obras vocais (prelúdios ou interlúdios). No Classicismo, entretanto, ela é embasada nos dois tipos de aberturas de óperas que se constituem no século XVII: a abertura francesa e a abertura italiana. A primeira, cujo paradigma é Lully, dá à orquestra de teatro as dimensões e características fundamentais da orquestra sinfônica clássica. A segunda, que traz a assinatura de Alessandro Scarlatti, dá ao gênero uma tripartição bem definida em movimentos distintos.

 

Deve-se aos filhos de Bach o uso da forma sonata nos primeiros movimentos. Mas é sobretudo a Johann Stamitz, fundador da Escola de Mannheim, e a seu filho, Karl Stamitz, que ali o sucedeu, que se devem as compleições definitivas da sinfonia e da orquestra sinfônica. Os Stamitz não criaram a sinfonia, mas organizaram sua prática e definiram seu caráter: a adoção de quatro movimentos, com a inserção definitiva de minueto e trio entre o movimento lento e o movimento final; o emprego da forma sonata no primeiro movimento, com dois temas contrastantes; o afastamento da escrita contrapontística; o abandono definitivo do baixo contínuo; a introdução do clarinete no naipe das madeiras.

 

É esse modelo que Joseph Haydn cristaliza. Mozart, por sua vez, o assume definitivamente a partir de 1773, com a sinfonia K. 201. De fato, as primeiras sinfonias de Mozart adotam o modelo tripartido das aberturas italianas e lembram, formalmente, muito mais o concerto ou as aberturas de suas primeiras óperas.

 

As sinfonias K. 297, K. 338 e K. 550
É, portanto, um sinfonista já maduro em suas escolhas que compõe, em 1778 a sinfonia K. 297. De fato, essa obra foi composta para o maior grupo orquestral de que dispôs Mozart em vida: na estreia, em Paris (em 12 de junho de 1778, em uma récita privada, na casa do conde von Sickingen), havia vinte e dois violinos, cinco violas, oito violoncelos e cinco contrabaixos, e é a primeira das sinfonias em que o par de clarinetes aparece. Seis dias depois, ela foi executada em público na série Concert Spirituel, na Salle des Cent Suisses, no Palácio das Tulherias. Fruto da segunda viagem de Mozart a Paris, o sucesso dessa obra (executada várias vezes na mesma série, nos dois anos seguintes) não corresponde à indiferença com que a sociedade parisiense o recebeu: já não interessava aos parisienses o jovem de vinte e dois anos, como lhes interessara o prodígio que ali esteve entre 1763 e 1764. Talvez por isso Mozart tenha substituído, na récita das Tulherias, o segundo movimento (trocando, por um andante, o andantino em seis por oito, que não agradou aos primeiros ouvintes). Ambos os movimentos são aceitos hoje e dependem da escolha do intérprete. Note-se que, nessa obra, Mozart ainda não inclui o minueto da sinfonia clássica, atendo-se à forma tripartida.

 

A sinfonia K. 338 data de dois anos depois, pertence à fase em que Mozart ainda residia em Salzburgo e antecede duas obras-primas: a sinfonia K. 385 (Haffner) e a K. 425 (Linz). Mozart também aqui atém-se a três movimentos, omitindo o minueto, embora o musicólogo Alfred Einstein afirme que o minueto K. 409 foi composto posteriormente para ser inserido nessa obra. Há poucos argumentos que comprovam essa afirmação, e alguns que o rejeitam, a começar pela inclusão de duas flautas na orquestração do minueto, ausentes dos outros movimentos da sinfonia. Note-se, antes, o trabalho com os sopros e a rítmica típica da fanfarra, no primeiro movimento, que lhe atribuem um caráter festivo, que contrasta com o segundo movimento. Este desperta o Mozart da ópera e da música vocal. O último movimento é uma dança, um tanto enérgica, bem à maneira da tradição musical italiana. Não se sabe ao certo a data de estreia dessa obra, mas pode-se supor que se deu na corte do Príncipe-Arcebispo de Salzburgo, antes de 1781.

 

A obra-prima que é a sinfonia em sol menor, K. 550, composta em 1788, porém, é de outra grandeza (se é que de Mozart se pode dizer isso!…). Penúltima obra do gênero do compositor, pertence à fase final de sua vida e mostra o modelo de música que Beethoven iria seguir ou transcender e com o qual todo o sinfonismo do século XIX se veria mais ou menos em débito. Sobre ela escreveram desde von Nissen, primeiro biógrafo de Mozart (aristocrata que se casou com a viúva do compositor), a Hector Berlioz. Sobre ela ainda hoje há os mais variados comentários, que ora a associam ao Sturm und Drang, ora a um sentimento trágico do compositor em relação a si mesmo. Alfred Einstein afirma que nem ela nem a que a seguiu (nº 41, K. 551, “Júpiter”) teriam sido compostas para serem executadas, mas que seriam um “legado de Mozart à posteridade”. A afirmação é revestida de polêmica: desde correspondências de contemporâneos do compositor até anúncios de concertos conduzidos por Salieri em Viena, assim como cópias de manuscritos revisados pelo compositor atestam que ela foi executada quando Mozart ainda vivia. O fato é que ela deve ter sido estreada entre o ano de sua composição e o ano da morte de Mozart. É fato também que as três últimas sinfonias foram compostas em menos de seis semanas, no mesmo ano de 1788. Esta obra desvela o Mozart de sempre, mas, se é permitido dizê-lo, menos dramático e mais trágico: menos persona e mais pessoa… ainda admiravelmente clássico, mas surpreendentemente além disso.

 

* Moacyr Laterza Filho é pianista e cravista, Doutor em Literaturas de Língua Portuguesa, professor da Universidade do Estado de Minas Gerais e da Fundação de Educação Artística.

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