|    13 mar 2018

Notas sobre uma expedição à Itália

No dia 17 de março, os sábados Fora de Série na nossa Orquestra começam com um passeio musical pela terra de Rossini, Respighi, Puccini e Verdi.

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por Moacyr Laterza Filho *

 

[Ilustra este texto um recorte de uma xilogravura com vista panorâmica da cidade de Pesaro, onde Rossini nasceu. A imagem foi publicada no suplemento Le cento citta d’Italia, em 25 de fevereiro de 1892.]

 

A despeito da cronologia, Rossini não é exatamente um romântico. Mas sem ele não haveria Verdi ou Puccini. Nascido na última década do século XVIII, um ano após a morte de Mozart e no ano da deposição de Luís XVI pela Revolução Francesa, ele representa, na verdade, o apogeu da ópera clássica italiana. Mas ele não ignora as conquistas expressivas do século XIX, e sua música, apesar de pouco ousada para a época, traz inovações significativas que se tornaram patrimônio da ópera. Assim, se os Davidsbündler de Schumann se alinham ideologicamente com Goethe e Byron, Rossini se alinha muito mais com Balzac e Stendhal, que, aliás, foi um de seus biógrafos.

 

Ademais, Rossini nunca teve interesse, disposição ou tempo para se dedicar aos debates intelectuais ou revolucionários. Sua capacidade de criação era prodigiosa: quando O barbeiro de Sevilha estreou em Roma, em 1816, Rossini não era o maior compositor de óperas da Itália: era o único! Seus compatriotas ou já se haviam aposentado, ou trabalhavam fora da Itália, ou dedicavam-se ao ensino. Daí a conta espantosa de trinta e nove óperas, numerosas obras religiosas, cantatas e obras vocais esparsas, e outras tantas obras sinfônicas, de câmara ou para piano.

 

As Sei Sonate a Quattro de Rossini foram compostas por um jovenzinho de doze anos em 1804 e publicadas somente entre 1825 e 1826. Escritas originalmente para quarteto de cordas, muitas versões foram feitas dessas obras, a começar da versão para orquestra de cordas. A versão para quarteto de sopros mais comumente executada é a realizada pelo clarinetista Friedrich Berr, contemporâneo de Rossini, com quem ele teve contato em junho de 1825, em Paris. Tanto o primeiro desses quartetos quanto a Serenata para Pequeno Conjunto (per Piccolo Complesso), composta em 1823, mostram um Rossini fora do teatro de ópera, mas ainda brilhante melodista e plenamente capaz de dominar a linguagem instrumental. É claro, porém, que a linguagem operística não deixa de estar presente, e na Serenata ouvem-se reminiscências de Semiramide, composta no mesmo período.

 

Depois de se retirar do cenário operístico, Rossini dedicou-se a compor, despretensiosamente, pequenas peças para piano. Disso surgiram quatorze tomos que ele intitulou Péchés de Vieillesse (Pecados da Velhice). Baseado nessas peças é que Ottorino Respighi volta duas vezes seu olhar para Rossini. Na primeira, em 1919, ele compõe um balé (La Boutique Fantasque). Na segunda, em 1925, ele compõe uma suíte orquestral, baseada em quatro peças do décimo segundo tomo, intitulado Quelques Riens (“Coisas à Toa”): Rossiniana. Mais ou menos como nas suas Antiche Danze et Arie per Liuto (Danças e Árias Antigas para Alaúde), Respighi realiza, tanto no balé quanto na suíte, uma espécie de transcrição livre, que denota não apenas respeito pelas obras originais, mas uma intervenção intencional do próprio Respighi, na orquestração, na seleção e organização dos movimentos.

 

A ascendência de Rossini sobre Puccini e Verdi é bem mais discreta, mas indelével: pode-se dizer que ambos herdaram de Rossini a tática do pressentimento dramático, do qual a Abertura de A força do destino e o segundo ato da Tosca são paradigmas. O Capricho Sinfônico de Puccini, porém, é uma obra de juventude. Apresentado ao Conservatório de Milão em 1883 (ano de sua composição e estreia) como trabalho final de seus estudos, nele já se revela o grande elaborador sinfônico da Tosca, de La Bohème e de Madame Butterfly, mas ainda não se mostra o arrojado criador de Turandot.

 

De Verdi deve-se dizer pouco, porque sua música fala muito: três notas repetidas nos metais. Pausa dramática. As mesmas três notas de novo repetidas nos metais. Outra pausa dramática… E então uma turbulenta melodia nas cordas. Na seção central da obra, um coral de metais sobre o qual as cordas fazem inquietantes intervenções. É impossível ficar indiferente à Abertura de A força do destino, ópera concluída em 1861 e estreada em São Petersburgo, em 1862. Verdi consegue ser popular sem vulgaridade, acessível sem demagogia e emocionante sem pieguice. É, sem dúvida, o ápice de uma tradição que começa com Monteverdi e que ainda se mantém.

 

* Pianista e cravista, Doutor em Literaturas de Língua Portuguesa, professor da Universidade do Estado de Minas Gerais e da Fundação de Educação Artística.

 

Para aprofundar o conhecimento

Lauro Machado Coelho – A ópera clássica italiana (Perspectiva – 2003)

Merrill Knapp – The magic of opera (Da Capo Press, 1972/Harper & Row, 1984)

 

ROSSINI

Para ouvir
CD Gioacchino Rossini – Sonatas for Wind Quartet | Michael Thompson, trompa – Jonathan Snowden, flauta – Robert Hill, clarinete – John Price, fagote (Naxos – 1996/2002)

CD Rossini – Musica da câmera | Polimnia Ensemble (Musikstrasse – 2016)

 

RESPIGHI

Para ouvir
CD Respighi – Church Windows; Brazilian Impressions; Rossiniana | Buffalo Philharmonic Orchestra – JoAnn Falletta (Naxos 8557711)

 

PUCCINI

Para ouvir
Puccini – Messa di Gloria; Preludio Sinfonico; Capriccio Sinfonico | Orquestra Sinfônica da Rádio de Montecarlo – Claudio Scimone, regente (Erato, 1993/Apex, 2017)

 

VERDI

Para ouvir
Verdi – Requiem; La forza del destino Overture | Orquestra e Coro Philharmonia – Carlo Maria Giulini, regente (BBC Legends – 2004)

Para assistir
New York Philharmonic – Alan Gilbert, regente
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=jxpNBUg5VmY

Berliner Philharmoniker – Herbert von Karajan, regente
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=AUuJxE-iWbo

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