|    7 nov 2017

Questo incredibile barocco italiano!

Há muito mais na música barroca da Itália do que Antonio Vivaldi. Descubra Albinoni, Corelli, Tartini, Locatelli, Geminiani e Domenico Scarlatti neste texto do pianista e cravista Moacyr Laterza Filho.

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por Moacyr Laterza Filho *

 

Quando ressurge o interesse pela música barroca, a partir da década de 1960, com sua ampla e massiva difusão pela indústria fonográfica de então, o mundo pareceu se opor em uma dicotomia absurda: de um lado, Johann Sebastian Bach e, de outro, Antonio Vivaldi, como se o infinito que é a linguagem musical barroca se restringisse a esses dois compositores e a seu entorno… Como se um fosse o antagonista do outro. Felizmente o interesse crescente e o trabalho quase arqueológico de pesquisa, dentro e fora da academia, fizeram despertar outros incontáveis nomes, das mais diversas fases e escolas do Barroco europeu e latino-americano. No entanto, o nome de Vivaldi permanece insistentemente como ícone do Barroco italiano, parecendo sintetizar-lhe toda a engrenagem. Isso é um imenso equívoco. Sem demérito do crédito histórico e estético que tem sua música, e sem demérito de sua figura, ela mesma barroca – no panteão do Barroco italiano o lugar de Vivaldi é grande e importante, mas nem de longe o único ou o maior de todos. Mesmo no seio da Escola Veneziana, à qual pertence, a diversidade, sincrônica ou diacrônica, de estilos e linguagens é tão grande que faz dele uma estrela muito brilhante em um conjunto de constelações, de onde desponta também, por exemplo, Tomaso Albinoni.

 

Além disso, é mister lembrar que, ideologias religiosas à parte, na música, o Barroco foi gerado na Itália e foi ali que se desenvolveram certas mudanças decisivas na linguagem musical. É assim que aparece, indelével, o nome de Claudio Monteverdi, que, com o estilo recitativo, atenuou a polifonia, abrindo os caminhos para a melodia acompanhada, e inventou a ópera. No campo das formas e estruturas, porém, foi Corelli quem definiu as feições da trio sonata e do concerto grosso (estilo concertante em que há mais de um solista), traços quase genéticos do Barroco instrumental.

 

É igualmente importante lembrar que foi a partir da Itália que a música barroca foi exportada para os mais distantes confins do mundo. Basta dizer que Domenico Scarlatti, nascido em Nápoles, filho do siciliano Alessandro Scarlatti, viveu e trabalhou a maior parte de sua vida nas cortes portuguesa e espanhola, formando escola. Seus discípulos trouxeram a linguagem do Barroco italiano, então já pintada de cores ibéricas, para as colônias, criando os mais saborosos frutos, principalmente na América espanhola.

 

A despeito das pesquisas quase exaustivas, ainda figuram pouco exploradas as linguagens estranhas, arrojadas, do lucano Francesco Geminiani (aluno de Alessandro Scarlatti e de Corelli) e de Pietro Locatelli, natural de Bergamo, que viveu grande parte de sua vida em Amsterdã. Igualmente pouco executado (exceto, talvez, em ambientes especializados) é o inspirado Giuseppe Tartini, injustamente mais lembrado pelo seu trabalho teórico que por sua atividade criativa, dotada de uma invulgar dramaticidade no campo da música instrumental.

 

O Barroco italiano é como os carnavais de Veneza: as máscaras são muitas e os rostos, incontáveis. Ele ajudou a formar todo um imaginário que, para além dos séculos XVII e XVIII, tornou-se atemporal, instigando a inventividade dos mais díspares artistas, penetrando a modernidade. Não fosse isso, teria Stravinsky composto seu Pulcinella?

 

* Pianista e cravista, Doutor em Literaturas de Língua Portuguesa, professor da Universidade do Estado de Minas Gerais e da Fundação de Educação Artística.

 

(A imagem em destaque nesta página é um recorte da pintura criada por Gaspare Traversi em meados do século XVIII. Ela retrata Maria Bárbara de Bragança, então princesa de Portugal, tocando cravo e sendo orientada por Domenico Scarlatti.)

 

BARROCO ITALIANO

Para ler
Eugenio D’Ors – Du Baroque (Gallimard – 1968)

 

SCARLATTI

Para ouvir
CD Scarlatti – Concerti & Sinfonie | Europa Galante – Fabio Biondi, regente (Erato – 2002)

Para assistir
Europa Galante – Fabio Biondi, regente
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=llE2Da0OtOk

 

ALBINONI

Para ouvir
CD Albinoni e outros – Adagio e outras | Orpheus Chamber Orchestra (Deutsche Grammophon – 1991)

Para assistir
Copernicus Chamber Orchestra – Horst Sohm, regente
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=_eLU5W1vc8Y

 

CORELLI

Para ouvir
CD Corelli – 12 Concerti Grossi, op. 6 | Academy of St Martin in the Fields – Neville Marriner, regente (Decca – 1995 – 2 CDs)

Para assistir
Freiburger Barockorchester
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=XFQ2oTYp5Z8

 

TARTINI

Para ouvir
CD Concertos Baroques Italiens | Academy of Saint Martin in the Fields; Orchestre de Chamber J. F. Paillard; Orchester de Chamber Franz Liszt de Budapest – Neville Marriner; J. F. Paillard; Frigyes Sandor, regentes – Maurice André, trompete (Erato D 161430 – 1993)

CD Cantar Pacho Flores | Konzerthausorchester Berlin – Christian Vásquez, regente – Pacho Flores, trompete – Sabine Erdmann, cravo (Deutsche Grammophon DG 4791068 – 2016 – terceiro movimento)

Para assistir
Slovakia Orchester – Jin-hyoun Baek, regente – Man-wook Han, trompete
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=WjmybeNcfLg

 

LOCATELLI

Para ouvir
CD Locatelli’s opus 4 | The Raglan Baroque Players – Elizabeth Wallfisch, regente (Hyperion – 2009 – 2 CDs)

Freiburger Barockorchester – Gottfried von der Goltz, regente
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=qMRwK7hUYR8

 

GEMINIANI

Para ouvir
CD Geminiani – 12 Concerti grossi | I Musici (Philips Classics – 1993 – 2 CDs)

 

Para assistir
Chaarts Chamber Artists
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=7Oy_EcAYbnY

 

STRAVINSKY

Para ouvir
CD Stravinsky – Pulcinella Suite; Dumbarton Oaks; 8 Instrumental Miniatures | Orpheus Chamber Orchestra (Deutsche Grammophon – 1990)

 

Para assistir
Filarmônica de Israel | Zubin Mehta, regente
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=X4KYuhfag5I (parte 1)
https://www.youtube.com/watch?v=tgcPF8fSOig (parte 2)
https://www.youtube.com/watch?v=sxg-lveXEfk (parte 3)

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