|    16 ago 2016

Uma ópera para Mozart

Dos muitos gêneros as quais Mozart se dedicou, talvez a ópera seja aquele que esteve mais próximo de seu coração. Das 22 que escreveu, escolhemos "Così fan tutte" para ser semiencenada no sexto capítulo da nossa série dedicada ao compositor. Leia o que o nosso colaborador Paulo Sérgio Malheiros dos Santos escreveu sobre essa obra-prima.

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Mozart escreveu 22 obras para o teatro lírico. A primeira, Die Schuldigkeit des ersten Gebotes, K. 35 [O Dever do Primeiro Mandamento], foi estreada em 12 março de 1767, quando o compositor tinha 11 anos. A última, A Flauta Mágica, K. 620, ganhou os palcos no dia 30 de setembro de 1791, apenas dois meses antes de sua morte. Dos inúmeros gêneros as quais se dedicou, talvez a ópera seja aquele que esteve mais próximo de seu coração – inclusive, é possível sentir a devoção de Mozart à voz mesmo em suas peças sinfônicas.

 

Neste sábado e domingo, 20 e 21 de agosto, no sexto capítulo da nossa série dedicada a Wolfgang Amadeus, trazemos Così fan tutte, ossia La Scuola degli Amanti, K. 588 (Viena, 1790) como uma amostra da genialidade absoluta do prodígio de Salzburgo na ópera (SAIBA MAIS). Foi sobre ela que o nosso colaborador Paulo Sérgio Malheiros dos Santos* escreveu. Leia:

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Così fan tutte é a última das três obras-primas de Mozart com o libretista Lorenzo Da Ponte. O elenco se reduz a seis personagens, agrupados em três pares. Tal simetria é explorada no libreto e fornece ao compositor – então no auge de sua criatividade – oportunidades para criar música perfeita nos menores detalhes e de grande variedade imaginativa.

 

Na breve Abertura, após uma introdução lenta, o andamento rápido imprime o caráter feérico que dominará os dois atos da ação cênica.

 

Ato I
Dois oficiais, Ferrando e Guglielmo, são noivos de duas irmãs, respectivamente Dorabella e Fiordiligi. Em um café, eles discutem sobre a fidelidade. Desafiados pelo cético Don Alfonso, aceitam apostar na lealdade de suas noivas, participando de um plano para prová-la. O terceto Una bela serenata fecha a cena com a alegria dos oficiais, certos da vitória.

 

Os clarinetes, em terças sobre as cordas, transportam a cena à casa de Dorabella e Fiordiligi. As irmãs cantam os méritos de seus apaixonados no dueto Ah, guarda sorella, de sentimentalismo propositadamente exagerado. Don Alfonso dá início a seu plano, anunciando-lhes a falsa notícia da recente convocação dos noivos para a guerra.

 

A ação desenvolve-se com formações musicais diversas: quintetos, um dueto para os oficiais, trios e o coro militar. Em Di scrivermi ogni giorno, sobre o fundo dos sarcásticos comentários de Don Alfonso, os namorados se despedem. Ferrando e Guglielmo partem. O fluido trio Soave sia il vento deseja-lhes boa viagem. As noivas estão inconsoláveis. Alfonso, porém, proclama um rancoroso discurso contra a inconstância das mulheres: Quante smorfie!

 

A criada Despina tenta consolar as irmãs. Dorabella extravasa seu sentimento de abandono em Smanie implacabile, cujos efeitos vocais parodiam as habituais árias trágicas. Em contraste, no cômico solo In uomini, in soldati, Despina propõe que as irmãs aproveitem a ausência dos namorados… para namorar.

 

Alfonso suborna Despina e apresenta-lhe Ferrando e Guglielmo disfarçados de albaneses. As irmãs mostram-se indignadas com a presença dos estranhos em sua casa. Mas Alfonso intervém saudando-os como grandes amigos. Imediatamente os albaneses iniciam suas declarações amorosas às noivas trocadas. Fiordiligi declara sua inquebrantável fidelidade – Come scoglio. Trata-se de uma ária dificílima, que parece zombar da virtuosidade, com largos intervalos, de um extremo a outro da tessitura de soprano. Guglielmo responde com a suavidade de Non siate ritrosi. Mas as noivas não se comovem e retiram-se. Diante de tal demonstração de fidelidade, o romântico Ferrando canta a ária Un’alra amorosa. Alfonso, que não se dá por vencido, pede a Despina um estratagema para reverter a situação.

 

Os acontecimentos se complicam e fornecem ao compositor um extenso finale. Os albaneses simulam suicídio, tomando um suposto veneno. As noivas se enternecem diante da triste sorte dos agonizantes. O artifício dos disfarces atinge grande comicidade quando Despina, fazendo-se de médico, administra seu onipotente talismã curativo, a pedra de Mesmer. Recuperados, os pseudossuicidas acordam no Olimpo e pedem beijos consoladores às duas deusas. Enfurecidas, as irmãs mandam os albaneses às favas, no sexteto Dove son?.

 

Ato II
A virtude das senhoras irrita Despina, que resume sua opinião na ária Una donna a quindici anni – porque não se deixar cortejar? As irmãs concordam em conversar com os albaneses. Decisão tomada, cada uma escolhe seu parceiro no dueto Prenderò quel brunettino – Dorabella com Guglielmo; Fiordiligi e Ferrando. Os apaixonados oferecem uma serenata às amadas, Secondate, aurette amiche, dueto de extasiante melodia, com coro.

 

Acanhados, os albaneses e as irmãs ficam sem assunto, falando do tempo. Porém, após alguma hesitação, Guglielmo oferece a Dorabella um medalhão em forma de coração, trocando-o pelo que ela trazia com o retrato do noivo Ferrando. No dueto Il coro vi dono a orquestra simula as palpitações de seus corações apaixonados.

 

Enquanto isso, Fiordiligi e Ferrando continuam relutantes. Ele alterna dúvida e confiança: Ah, lo veggio. E ela expressa seus confusos sentimentos no grande rondó Per pietà, bem mio, cujas assombrosas dificuldades técnicas – é o morceau de bravoure da ópera – refletem os conflitos de sua alma.

 

Reunião dos albaneses para avaliar a situação: Ferrando traz boas notícias – a fidelidade de Fiordiligi alegra-os. Mas ele se desespera quando o companheiro apresenta-lhe o medalhão de Dorabella. Para consolar o amigo – e também porque se sente culpado –, Guglielmo aconselha-o a não se envolver tanto assim, pois as mulheres sempre maltratam o coração dos homens. A sofisticada verve desta ária, Donne mie, la fate a tanti, lembra a melhor música de câmara mozartiana. Ferrando canta seu desespero na sombria cavatina Tradito, schernito. Alfonso entra em cena e faz um irônico balanço da situação.

 

Despina elogia a atitude decidida que Dorabella apresenta em sua ária È amore un ladroncello. Fiordiligi, ao contrário, continua sofrendo com a dubiedade dos sentimentos. Num recurso derradeiro, ela toma a decisão de se disfarçar para encontrar o noivo Guglielmo no campo da guerra. Porém, o albanês Ferrando aparece e com a beleza avassaladora do dueto Fra gli ampessi os dois celebram a felicidade da nova união.

 

Os três apostadores se encontram. Os rapazes estão revoltados com a infidelidade das irmãs. Mas Alfonso intervém com seu solo – “nem melhores, nem piores que as outras”, afirma. E obriga os oficiais a cantarem juntos CosÌ fan tutte.

 

Despina comunica o casamento das patroas com os albaneses. O brinde aos noivos E nel tuo, nel mio bicheiro é um engenhoso cânone iniciado por Fiordiligi e acrescido do aparte revoltado de Guglielmo. Despina faz o papel de tabelião, mas a cerimônia é interrompida pela banda militar que anuncia a volta dos oficiais. Após grande confusão, tudo se resolve com o perdão mútuo. Os amantes estão novamente reunidos – não importa se da forma original ou se na versão albanesa. O sexteto final celebra a alegria e homenageia quem enfrenta as dificuldades com bom-humor.

 

Paulo Sérgio Malheiros dos Santos
Pianista, Doutor em Letras, professor na UEMG, autor dos livros Músico, doce músico e O grão perfumado – Mário de Andrade e a arte do inacabado. Apresenta o programa semanal Recitais Brasileiros, pela Rádio Inconfidência.

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