Música e Literatura

Fabio Mechetti, regente
Arildo de Barros, ator
Licio Bruno, baixo-barítono

|    Fora de Série 2019

WAGNER
VILLA-LOBOS
BERLIOZ
RAVEL
TCHAIKOVSKY
GOMES
Abertura Fausto
Poema de Itabira
Romeu e Julieta, op. 17: Cena de amor
Don Quixote à Dulcineia
Francesca da Rimini, op. 32
O Guarani: Protofonia

Fabio Mechetti, regente

Natural de São Paulo, Fabio Mechetti é Diretor Artístico e Regente Titular da Filarmônica de Minas Gerais desde sua criação, em 2008. Recentemente, tornou-se o primeiro brasileiro a ser convidado a dirigir uma orquestra asiática, sendo nomeado Regente Principal da Filarmônica da Malásia. Foi Residente da Sinfônica de San Diego, Titular das sinfônicas de Syracuse, Spokane e Jacksonville, sendo agora Regente Emérito das duas últimas. Foi Regente Associado de Mstislav Rostropovich na Sinfônica Nacional de Washington. Além de uma sólida carreira nos Estados Unidos e no Brasil, já conduziu em países como México, Peru, Venezuela, Nova Zelândia, Espanha, Japão, Escócia, Finlândia, Canadá, Suécia e Itália. Venceu o Concurso Internacional de Regência Nicolai Malko. Mechetti possui títulos de mestrado em Composição e em Regência pela Juilliard School.

Arildo Barros é ator do Grupo Galpão, onde começou como assistente de Gabriel Villela em Romeu e Julieta e no elenco de A rua da amargura. Antes disso, atuou em peças marcantes sob direção de Ítalo Mudado, Amir Haddad, Paulo César Bicalho, Carlos Alberto Ratton, Jota D’Ângelo e Eid Ribeiro. Arildo lecionou na PUC Minas, levando à cena textos nacionais e estrangeiros. Também atuou no cinema e na TV e foi premiado como Melhor Ator por Fala baixo senão eu grito, O encontro marcado, Um homem é um homem e O inspetor geral.

O sucesso e amplitude da carreira de Licio Bruno são notáveis entre os cantores brasileiros por suas atuações em ópera, música sinfônica, de câmara e teatro aqui e também no exterior. Aperfeiçoou-se na Academia Franz Liszt, Budapeste, e foi membro da Ópera Estatal Húngara. Já cantou na Itália, Espanha, Alemanha, Suíça, Colômbia e Argentina. No Brasil, Com mais de cinquenta personagens em óperas de diferentes autores, períodos e estilos, os teatros de ópera e salas de concerto são sua casa. Já foi dirigido por Amir Haddad, Jorge Takla, Gianni Rato, Werner Herzog, Hugo de Anna, Aidan Lang, entre outros. Cantou com diversos maestros, entre os quais Lorin Maazel e Isaac Karabtchevsky, das paixões de Bach até Beethoven, Kodály, Stravinsky e Britten, bem como ciclos de Schubert, Mahler, Ravel e Poulenc, entre outros. Licio Bruno é detentor de mais de dez primeiros prêmios em concursos nacionais e estrangeiros e recebeu, em 2004, o Prêmio Carlos Gomes de Melhor Cantor Erudito.

Programa de Concerto

Abertura Fausto | WAGNER

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe é a fonte literária para o trabalho de Wagner em Abertura Fausto. A lenda alemã conta o drama do erudito que faz um pacto com o diabo. Posteriormente eternizada na escrita de Goethe, a obra ocupou a carreira do autor em diferentes momentos da vida e causou justificado reboliço, tendo sido adaptada das palavras para as notas musicais por compositores como Spohr, Berlioz, Schumann, Liszt e Gounod. Wagner compôs a Abertura Fausto em Paris no fim de 1839 e início de 1840. A ideia inicial era que a ela fosse o primeiro movimento de uma futura sinfonia, mas a empreitada foi abandonada e a peça permaneceu com um movimento único de abertura. Em carta a Liszt em 1852, Wagner explicou que a abertura evoca uma versão solitária de Fausto. Sua amada Gretchen seria o tema do segundo movimento, que nunca chegou a existir. A estreia ocorreu em Dresden, em 1844.

Anualmente, no mês de maio, Carlos Drummond de Andrade vinha a Belo Horizonte do Rio de Janeiro por ocasião do aniversário de sua mãe, Julieta Augusta, que morava numa espécie de apart-hotel dentro do Hospital São Lucas. Os netos de dona Julieta contam na biografia Os sapatos de Orfeu, de José Maria Cançado, que no dia do aniversário dela, Drummond passava todo o tempo no São Lucas. “Ele costumava ficar com a cabeça encostada longamente no colo ou no obro da mãe, e a ouvia discorrer, branda, etérea, um pouco absurda, sobre as pessoas do seu tempo de Itabira, a família, o mundo e sobre as convicções morais dela (...). Conselhos como ‘perdoa os erros, filhos do pouco saber’, que tinham não um tom pedante, sabichão e empolado, mas eram como um princípio a ser repetido brandamente até o fim”. No fim da vida, a mãe de Drummond resolveu voltar para Itabira. Dois meses antes de sua morte, o poeta foi visitá-la pela última vez. Quase não saía do lado de sua mãe, mas interrompeu a vigília em um único momento para apostar corrida com o irmão José pelas ruas da cidade que havia inspirado os versos de “Viagem na família”. Em dezembro de 1948, enquanto Drummond acompanhava o enterro de sua mãe, em Itabira, na mesma hora, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, era executado o Poema de Itabira, de Villa-Lobos. A obra evoca o sentimento em torno daquele mundo de Julieta Augusta, a cultura do interior e seus ensinamentos. Sua profunda assimetria entre letra e música soam em um lugar desconhecido, mas que anseia reconciliação.

Hector Berlioz foi o primeiro compositor a compreender o expressivo potencial da orquestração como uma arte em si, e não somente em função de uma história ou enredo. Mesmo para o jovem Richard Wagner, recém-chegado em Paris, a interpretação de Berlioz para o clássico Romeu e Julieta soou como “a revelação de um novo mundo na música. Eu estava todo ouvidos para tudo o que eu ainda não havia conhecido e [depois de ouvir Romeu e Julieta] eu tive que tentar explicar para mim mesmo”. Em 1839, Wagner tinha 26 anos e ainda era praticamente desconhecido do mundo da música. Berlioz já era dono de uma trajetória pavimentada pela Sinfonia Fantástica e por Haroldo na Itália. Assim como em Quadrilha, eterna poesia de Drummond, Wagner fora influenciado por Berlioz, que por sua vez teria sido inspirado por Beethoven. A ideia de escrever uma symphonie dramatique nem tinha passado pela cabeça de Berlioz antes de dois eventos decisivos em sua vida criativa. O primeiro deles ocorreu no outono de 1827 no teatro Odeon em Paris, quando conheceu no palco a atriz irlandesa Harriet Smithson, sua futura Julieta e esposa. A outra força motivadora só viria um ano depois, em 1928, quando Berlioz ouviu uma apresentação das sinfonias nº 3 e nº 5 do gênio de Bonn: “Com Beethoven, abriu-se diante de mim um novo mundo da música, assim como Shakespeare abriu um novo universo na poesia”, explicou. O resultado é uma obra sem precedentes e com tamanha originalidade que não inspira sequências ou imitações.

Pensados inicialmente como parte da trilha musical de um filme, os três movimentos de Don Quixote à Dulcineia foram escritos por Maurice Ravel entre 1932 e 1933 tendo como base três poemas de Paul Morand. Don Quixote à Dulcineia foi o último trabalho concluído por Ravel antes que o acometesse devastadora doença mental que o impediu de tocar e, mesmo após longos períodos de descanso na Espanha e Marrocos, o levou ao túmulo em 1937. Nos pouco mais de sete minutos de música, Don Quixote à Dulcineia oferece ao interlocutor uma visível (audível!) atmosfera que, por meio de diversas tradições folclóricas espalhadas pelos movimentos, evoca uma Espanha imaginativa. Ainda que permeadas pelo mais autêntico estilo seco e linear de Ravel, trata-se de uma peça com cor, nuance e, especialmente, sotaque.

Prometida a Guivanni, filho mais velho de Malatesta da Verucchio, a jovem Francesca, filha do Senhor de Ravena, não sabia que estava de casamento marcado com um homem rude e feio. A lenda conta que os Malatesta, imaginando que Francesca poderia recusar o casamento, enviaram o irmão mais jovem de Giovanni, Paolo, o Belo, para realizar o enlace por procuração. Francesca teria visto Paolo pela janela e imaginara que seria seu esposo. Ao acordar em Rimini, quão surpresa ela deve ter ficado ao ver Giovanni ao seu lado. Essa é a parte documentada da história de Francesca da Rimini, nascida por volta de 1260. A continuação da história devemos a seu contemporâneo, Dante Alighieri, que a encontra juntamente com Paolo, no inferno. Em agosto de 1876, Tchaikovsky escrevia de Paris ao irmão, dizendo estar “inflamado pelo desejo de escrever um poema sinfônico sobre a Francesca”. O mundo conheceu esta obra de aproximadamente 25 minutos em 9 de março de 1877, em Moscou. Escrita em um único movimento, a peça inicia-se com a representação da descida de Dante ao inferno, onde testemunha o fenômeno da tempestade de vento que faz as almas girarem. Francesca e Paolo giram constantemente abraçados: param de rodopiar e ela conta sua história. A seção dedicada a Francesca e suas memórias inicia-se com um solo de clarinete e apresenta algumas das mais belas melodias já escritas por Tchaikovsky, que tem O lago dos cisnes e O quebra-nozes em seu currículo. A tempestade de vento retorna, levando embora as duas almas, e a obra chega ao fim, de maneira forte e comovente.

Carlos Gomes se inspirou no romance indianista O Guarani, de José de Alencar, para compor sua ópera de mesmo nome. A obra em quatro atos, com libreto em italiano de Antônio Sclavini e Carlo D’Orneville, trata da história de amor de Ceci e Peri. A montagem estreou com grande sucesso em 19 de março de 1870 no Teatro Scala de Milão – a estreia brasileira só veio em dezembro do mesmo ano, no Rio de Janeiro. A Protofonia, ou Abertura, é sem dúvida o tema mais conhecido dessa criação de Carlos Gomes. Inclusive, é uma versão dela que ouvimos no rádio na abertura do programa a Voz do Brasil.

16 nov 2019
sábado, 18h00

Sala Minas Gerais
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