Música, Fauna e Flora

Fabio Mechetti, regente

|    Fora de Série 2019

YOSHIMATSU
PUCCINI
RESPIGHI
HOVHANESS
VILLA-LOBOS
Trenodia para Toki, op. 12
Os Crisântemos
Os Pássaros
E Deus criou as grandes baleias, op. 229, nº 1
Floresta do Amazonas (excertos)

Fabio Mechetti, regente

Natural de São Paulo, Fabio Mechetti é Diretor Artístico e Regente Titular da Filarmônica de Minas Gerais desde sua criação, em 2008. Recentemente, tornou-se o primeiro brasileiro a ser convidado a dirigir uma orquestra asiática, sendo nomeado Regente Principal da Filarmônica da Malásia. Foi Residente da Sinfônica de San Diego, Titular das sinfônicas de Syracuse, Spokane e Jacksonville, sendo agora Regente Emérito das duas últimas. Foi Regente Associado de Mstislav Rostropovich na Sinfônica Nacional de Washington. Além de uma sólida carreira nos Estados Unidos e no Brasil, já conduziu em países como México, Peru, Venezuela, Nova Zelândia, Espanha, Japão, Escócia, Finlândia, Canadá, Suécia e Itália. Venceu o Concurso Internacional de Regência Nicolai Malko. Mechetti possui títulos de mestrado em Composição e em Regência pela Juilliard School.

Programa de Concerto

Trenodia para Toki, op. 12 | YOSHIMATSU

Trenodia é o nome dado a um canto fúnebre, ou a uma ode a um assunto triste. Se usarmos este caminho para entender a composição de Takashi Yoshimatsu, fica ainda mais compreensível a interseção que Trenodia para Toki traz entre uma composição de beleza ímpar, mas, simultaneamente, dotada de uma tristeza inconformada. Toki é a ave símbolo do Japão, declarada extinta em 1981, quando os seis exemplares remanescentes foram capturados pelo governo na tentativa malsucedida de gerar novos filhotes. No mesmo ano o opus 12 de Yoshimatsu estreava pela Sinfônica do Japão, com regência de Kazuo Yamada. A disposição da orquestra no palco evocava o formato do pássaro: o piano, ao centro, representa o corpo; os contrabaixos, ao fundo, a cauda; as cordas espelhadas, metade do lado esquerdo e metade do lado direito, são as asas; e o maestro é a cabeça. No fim da década de 80, o toki foi redescoberto na China. Em 1999, o Japão ganhou de presente um casal de tokis: Youyou e Yangyang, que no mesmo ano deram à luz o primeiro filhote japonês gerado por incubação artificial. Hoje, Japão e China já contam mais de 600 aves da espécie. Em 2010, Filarmônica fez a estreia de Trenodia para Toki no Brasil. À época, o nosso maestro Fabio Mechetti explicou: “Toda música tem um pouco dos costumes e do folclore do país em que é feita. A do Japão, que chega a incorporar instrumentos tradicionais em algumas peças, é mais contemplativa, até pela própria cultura local. Essa de Trenodia para Toki, por exemplo, não tem pulso, batida. A música japonesa, em geral, tem essa característica. É uma outra noção de tempo”.

A marca registrada de Giacomo Puccini é a ópera. As peças La bohème, Tosca, Madame Butterfly e Turandot estão entre as mais executadas em salas pelo mundo. Ainda que o próprio Puccini tenha reconhecido que o seu verdadeiro talento seja visto “nos teatros”, são poucos os trabalhos não-operísticos que escreveu. Alguns deles merecem atenção, como a elegia Os Crisântemos, originalmente composta para quarteto de cordas em 1890, mas arranjada para orquestra de cordas posteriormente – é nesta versão que ficou conhecida ao longo do século XX. A inegável afinidade com o quarteto de cordas, no entanto, acrescenta um tom à dualidade simbólica do crisântemo. Em algumas culturas, o crisântemo é comumente associado à velhice e à sabedoria por florescer no outono, no fim da época de cultivo. No entanto, na Itália, onde nasceu o compositor, as flores são usadas somente como decoração em funerais. O título da peça, escrita em homenagem ao Príncipe Amadeu de Espanha, morto em janeiro de 1980, trata-se de uma metáfora e homenagem a esse episódio.

Em seus melhores momentos, a música de Ottorino Respighi exibe uma inventividade de orquestração só comparável, em seu tempo, à de Ravel. Nenhum compositor italiano depois de Puccini conquistou tamanha popularidade internacional. E Os pássaros, de 1928, é sem dúvida alguma um dos melhores trabalhos orquestrais dele. A obra toma evocações de animais feitas por compositores dos séculos XVII e XVIII para sujeitá-las a requintes de orquestração aprendidos por Respighi no estudo de partituras de Richard Strauss e nas críticas de Rimsky-Korsakov a seus trabalhos iniciais (1900–1903). Após o Prelúdio baseado em uma ária de Bernardo Pasquini, o compositor nos apresenta quatro pássaros: La colomba [A pomba], inspirada por obra do francês Jacques de Gallot; La gallina [A galinha], derivado de um trabalho para cravo de Rameau; L'usignolo [O rouxinol], a partir de uma melodia inglesa de autor desconhecido; Il Cucù [O cuco], último movimento que retoma o tema original de Pasquini.

Algumas espécies de baleias produzem sons previsíveis e regulares. As belugas, por exemplo, são apelidadas de “canários do mar” em razão do volume e frequência do seus cantos, gritos e assobios. Essa cantoria tem diversas funções, como se comunicar e encontrar comida ou buracos no gelo do Oceano Ártico por onde possam respirar! Apresentado ao universo das baleias pelo regente Andre Kostelanetz e pelo professor e zoólogo Roger S. Payne, Alan Hovhaness ficou imediatamente inspirado. Recebeu diversas fitas de Payne, que continham o canto de jubartes nas ilhas Bermudas. O trabalho final inclui trechos do canto de baleias fornecidos pelo professor e outros estudiosos intercalados com sons produzidos pela massa orquestral como explicou o próprio Hovhaness em um comentário deixado em sua partitura: “Passagens liberadas do ritmo, cada instrumento de corda sendo tocado de forma independente – tudo isso traz a ideia de baleias em um vasto oceano. A melodia pentatônica indica a imensidão do amplo céu oceânico. Montanhas submarinas sobem e descem em trompas, trombones e tubas. A música das baleias também sobe e desce como cordilheiras (...), emergem como um gigantesco mítico pássaro marinho. A humanidade não existe, ainda não nasceu na particular solidão da natureza”.

“A grande arte é a própria Natureza”, dizia Heitor Villa-Lobos. Além dos elementos naturais, ele soube captar toda a gama de influências folclóricas e populares de nossa cultura e aplicá-las em sua música. Na década de 1950, compôs Erosão, baseada em lenda sobre a origem do rio Amazonas; Alvorada na floresta tropical; Rudá, Deus do Amor, contando a história das Américas pré-colombianas e a Sinfonia “Ameríndia”, um oratório sobre versos do Padre José de Anchieta. Sua última composição inspirada nessa “terra extensa, generosa e quente” foi a trilha sonora para o filme Green Mansions [A flor que não morreu] de 1958, no qual a atriz Audrey Hepburn interpreta uma menina da selva. Um ano antes de sua morte, a versão para concerto desta trilha foi rebatizada de Floresta do Amazonas.

25 mai 2019
sábado, 18h00

Sala Minas Gerais
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