A orquestra romântica I

José Soares, regente

|    Fora de Série 2021

WEBER
SCHUMANN
BRAHMS
LISZT
DVORÁK
O Franco-atirador: Abertura
Abertura, Scherzo e Final, op. 52
Abertura Trágica, op. 81
Valsa Mefisto nº 1
Abertura Carnaval, op. 92

José Soares, regente

Natural de São Paulo, José Soares é Regente Assistente da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde 2020. Iniciou-se na música com sua mãe, Ana Yara Campos. Estudou Regência Orquestral com o maestro Cláudio Cruz, em um programa regular de masterclasses em parceria com a Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. Participou como bolsista nas edições de 2016 e 2017 do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, sendo orientado por Marin Alsop, Arvo Volmer, Giancarlo Guerrero e Alexander Libreich. Recebeu, nesta última, o Prêmio de Regência, tendo sido convidado a atuar como regente assistente da Osesp em parte da temporada 2018, participando de um Concerto Matinal a convite de Marin Alsop. Foi aluno do Laboratório de Regência da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, sendo convidado pelo maestro Fabio Mechetti a reger um dos Concertos para a Juventude da temporada 2019. Em julho desse mesmo ano, teve aulas com Paavo Järvi, Neëme Järvi, Kristjan Järvi e Leonid Grin, como parte do programa de Regência do Festival de Música de Parnü, Estônia. Atualmente, cursa o bacharelado em Composição pela Universidade de São Paulo.

Programa de Concerto

O Franco-atirador: Abertura | WEBER

Em O Franco-atirador (1821), seu maior sucesso, Carl Maria von Weber retratou a natureza, revelando os mistérios de uma floresta fantástica, sombria, impregnada dos temores supersticiosos da mitologia germânica. Fiel à tradição vienense de Haydn e Mozart, Weber foi um romântico que encontrou no classicismo a melhor forma para se expressar. Com uma orquestra pouco maior que a de Mozart e sempre mantendo um admirável equilíbrio sonoro, o compositor criou efeitos fascinantes, cujo grande poder sugestivo leva o ouvinte ao mundo encantado de suas histórias. Para a criação de O Franco-atirador, Weber usou um libreto do poeta Friedrich Kind, inteiramente inspirado em lendas populares. A ação se passa na Alemanha, logo após a Guerra dos Trinta Anos. A história de amor do caçador Max por Ágata (filha do chefe Cuno) envolve uma competição de tiro entre os guardas florestais, balas de prata, encantamentos, o caçador-fantasma Samiel (o diabo da mitologia germânica) e pactos tramados na assustadora Caverna dos Lobos. Na Abertura, o compositor usa melodias inteiras da própria ópera, tecendo-as como movimento sinfônico de grande unidade.

Inicialmente concebida como uma abertura de concerto, Schumann começou a trabalhar em uma nova obra no dia 12 de abril de 1841, concluindo o esboço no dia seguinte. Logo depois esboçou ainda um Scherzo e um Finale. Em maio, os três movimentos foram reunidos em uma só obra. A obra foi estreada a 6 de dezembro. Com exceção da Abertura, ela não agradou ao público, que considerou o Final obscuro e sem colorido. Em outubro de 1845 a composição foi retrabalhada a partir de sugestões de amigos, críticos, editores e mesmo comentários do público. É estreada em Dresden na nova forma, em caráter experimental, em dezembro de 1845; e, oficialmente, em Leipzig, a 1º de janeiro de 1846. O resultado é uma obra que traz a grandeza da sinfonia romântica combinada à leveza da suíte orquestral.

Ao examinar a lista de composições de Brahms, um fato curioso salta aos olhos: sua predileção por compor pares de obras do mesmo gênero. Ainda mais curioso é o fato de que estes pares geralmente se caracterizam por obras com humor contrastante: enquanto uma é impetuosa, exuberante e cheia de vida, sua congênere costuma ser misteriosa, introspectiva, e até mesmo melancólica. A Abertura Trágica, op. 81 tem também seu par: a Abertura Festival Acadêmico, op. 80, escrita em agradecimento ao título de Doutor Honoris Causa recebido da Faculdade de Filosofia da Universidade da Breslávia, em que o autor tratou com certa grandiloquência leves canções estudantis. De caráter diametralmente oposto é a Abertura Trágica, obra intensa, dramática e, em alguns momentos, cheia de melancolia.

Liszt compôs suas quatro Valsas Mefisto entre 1859 e 1885. Na base delas está Fausto, trama literária que se incorporou de pronto ao imaginário romântico, de Schubert a Liszt. Na primeira delas, a cena Fausto e Mefistófeles chegam a uma estalagem onde se festeja um casamento. Induzindo Fausto a tomar parte na festa e achando que o violinista tocava sem muito entusiasmo, Mefistófeles arrebata dele o instrumento e dá à dança um ritmo delirante. Sentindo-se remoçado, Fausto toma nos braços uma aldeã com quem dança loucamente horas a fio, afastando-se depois, com ela, em direção à floresta, enquanto se ouve o canto de um rouxinol. Era expectativa de Liszt que a Procissão Noturna e a Valsa Mefisto fossem publicadas juntas, mas isso não aconteceu. Assim, a primeira peça caiu em relativo esquecimento e a Valsa passou a ser frequentemente executada como peça isolada. Estreada em 1861 pela Orquestra da Corte de Weimar, sob a batuta do próprio Liszt, a primeira Valsa Mefisto, junto com seu par, constituem um belo exemplo musical desses contrastes tão humanos que o mito do Fausto representa.

Antonín Dvorák começou a compor nos seus anos de estudante, em Praga. Suas composições, contrariando a germanização da cultura local, eram salpicadas com um certo tempero local. A música folclórica da Boêmia e da Morávia, que Dvorák aprendera cedo com o pai, seria sua fonte de inspiração ao longo de toda a vida. A Abertura Carnaval, esta obra exuberante e alegre, cheia de energia e vitalidade, é repleta de influências folclóricas e ritmos de danças tchecas. Como em muitas de suas obras, Dvorák evitou utilizar elementos retirados diretamente da música folclórica. Preferiu compor melodias e ritmos inspirados no folclore e integrá-los à ideia tradicional da abertura italiana. Segunda de três aberturas que Dvorák compôs nos anos 1891 e 1892, a Abertura Carnaval foi estreada em Praga, no dia 20 de abril de 1892, sob a regência do próprio compositor.