A orquestra romântica III

Fabio Mechetti, regente
Ana Lucia Benedetti, mezzo-soprano

|    Fora de Série 2021

WAGNER
R. STRAUSS
MAHLER
O idílio de Siegfried, WWV 103
Metamorfoses
Seis Canções

Fabio Mechetti, regente

Natural de São Paulo, Fabio Mechetti é Diretor Artístico e Regente Titular da Filarmônica de Minas Gerais desde 2008, ano de sua criação. Em 2014, ao ser convidado para ocupar o cargo de Regente Principal da Filarmônica da Malásia, tornou-se o primeiro brasileiro a dirigir uma orquestra asiática. Foi Residente da Sinfônica de San Diego, Titular das sinfônicas de Syracuse, Spokane e Jacksonville, sendo agora Regente Emérito das duas últimas. Foi Regente Associado de Mstislav Rostropovich na Sinfônica Nacional de Washington. Além de uma sólida carreira nos Estados Unidos e no Brasil, já conduziu em países como México, Peru, Venezuela, Nova Zelândia, Espanha, Japão, Escócia, Finlândia, Canadá, Suécia e Itália. Mechetti é vencedor do Concurso Internacional de Regência Nicolai Malko. Possui títulos de mestrado em Composição e em Regência pela Juilliard School.

Natural de São Paulo, Ana Lucia estudou piano no Conservatório de Música Ars et Scientia e é Bacharel em Canto pela Faculdade Mozarteum, na classe de Francisco Campos Neto. Estudou também com Hildalea Gaidzakian, Marcos Thadeu, Regina Elena Mesquita, Gabriel Rhein-Schirato e Eliane Coelho. Desde 2010, obtém orientação vocal de Isabel Maresca. Foi 1º lugar no IX Concurso de Canto Maria Callas (2009), Melhor Voz Feminina no IV Concurso de Canto Carlos Gomes (2011), 3º lugar no IX Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão (2011) e finalista do VI Concurso de Interpretação da Canção de Câmara Brasileira (2004). Ana Lucia cantou as Sinfonias nº 2 e nº 8 de Mahler, a Sinfonia nº 9 de Beethoven, A danação de Fausto de Berlioz, o Réquiem de Verdi, o Magnificat-Aleluia de Villa-Lobos, sob regência dos maestros Roberto Minczuk, Silvio Viegas, John Neschling e Roberto Tibiriçá, entre outros. Destacou-se como Jacinthe e Ursule em Le Domino Noir de Auber; como Dorothea Frescopane em Le convenienze ed inconvenienze teatral de Donizetti; como Juno em Orfeu no inferno de Offenbach; e como Lola em Cavalleria Rusticana de Mascagni.

Programa de Concerto

O idílio de Siegfried, WWV 103 | WAGNER

É raro ouvir um Wagner tão terno, tão intimista e sem tantos arroubos melodramáticos como o que se vê em O idílio de Siegrfried. Nela, o compositor soube registrar em música um desses raros momentos epifânicos da psiquê humana em que realidade e sonho se confundem, os problemas se dissolvem e os desejos brevemente não precisam existir. Wagner escreveu o Idílio como um presente de aniversário para sua segunda esposa, Cosima, que havia dado à luz Siegfried, filho do casal, nascido em 1869. Os Wagner residiam em Tribschen, na Suíça, em uma villa pitoresca às margens do lago Lucerna. Ele intitulou a obra, antes de sua publicação, apenas “Idílio”, mas acresceu-lhe um rebuscado subtítulo: “Idílio em Tribschen, com o canto de passarinho de Fidi e um nascer do sol alaranjado”. Trata-se quase de uma sinopse, que faz referência à villa dos Wagner, ao filho do casal (cujo apelido familiar era Fidi), ao lago e até ao papel de parede ao lado da porta do quarto de Cosima. Mais íntima ainda foi a primeira execução da peça: na manhã de Natal de 1870, Wagner agremiou um pequeno conjunto da Orquestra do Tonhalle de Zurique e a fez executar nas escadas da casa da família. Ao que parece, Cosima foi despertada naquela manhã pela melodia de abertura.

Aos 79 anos, Richard Strauss descreveu a destruição da Ópera de Munique em um bombardeio na Segunda Guerra Mundial como “a maior catástrofe da minha vida”. Naquele espaço, onde seu pai havia trabalhado como Primeira Trompa durante 49 anos, se deu seu contato com as mais emblemáticas obras de Weber e Wagner. Esta dor e o desgosto motivado pela guerra motivaram a criação deste “estudo para vinte e três cordas solistas”. Dez violinos, cinco violas, cinco violoncelos e três contrabaixos retratam esta meditação fúnebre, um longo Adagio sombrio e triste no qual não se vê respiro. A tristeza dá lugar a uma fugaz esperança que, por sua vez, retorna ao desânimo. À música se junta a literatura: referências a Mozart, Wagner e à Sinfonia Eroica de Beethoven se unem à obra poética de Goethe. Metamorfoses, obra-prima de Richard Strauss, foi escrita entre 13 de março e 12 de abril de 1945, nos últimos compassos da Segunda Guerra, e estreada com a presença do compositor em 25 de janeiro de 1946, em Zurique. A peça foi conduzida por Paul Sacher e tocada pelo Collegium Musicum da cidade, grupo para o qual a obra foi dedicada.

Gustav Mahler, como compositor de Lieder, inscreve-se na tradição romântica austro-germânica, no universo poético descortinado a partir das canções de Schubert e de Schumann. Como seus antecessores, mergulha, com sua música, nos sentidos do texto e subverte as características particulares dos domínios envolvidos: a linguagem musical parece dotada de conteúdo semântico e a obra revela a musicalidade da palavra. Nos Lieder com orquestra, essas características se evidenciam, de modo particular, através da paleta mahleriana, rica em matizes, contrastes, de uma inventividade que põe à prova a percepção do ouvinte. Duas das Seis Canções que ouviremos pertencem ao ciclo A Trompa Mágica do Menino [Des Knaben Wunderhorn], coleção de poemas folclóricos publicados entre 1805 e 1808. Nos Lieder, a orquestra também canta, dialoga com o poema; não acompanha apenas, como mera espectadora, mas participa do argumento literário. Nos Rückert Lieder, esse diálogo chega mesmo a se apresentar com um tratamento orquestral específico para cada peça.

Canção do perseguido na torre | Lá onde soam os belos trompetes | Blicke mir nicht in die Lieder! | Ich atmet einen Linden Duft | Liebst du um Schönheit? | Ich bin der Welt abhanden gekommen