Itinerários Sonoros – Brasil e Américas

José Soares, regente

|    Concertos para a Juventude

NEPOMUCENO
LEVY
COPLAND
PIAZZOLLA/Mechetti
MÁRQUEZ
VILLA-LOBOS
O Garatuja: Prelúdio
Samba
Rodeio: Quatro episódios de dança: Buckaroo Holiday e Hoe-Down
As quatro estações portenhas: Primavera Portenha
Danzón nº 2
Bachianas Brasileiras nº 2: Tocata – O trenzinho do caipira

José Soares, regente

Natural de São Paulo, José Soares é Regente Associado da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, tendo sido seu Regente Assistente desde as duas temporadas anteriores. Venceu o 19º Concurso Internacional de Regência de Tóquio, edição 2021 (Tokyo International Music Competition for Conducting). José Soares recebeu também o prêmio do público na mesma competição. Iniciou-se na música com sua mãe, Ana Yara Campos. Estudou Regência Orquestral com o maestro Cláudio Cruz, em um programa regular de masterclasses em parceria com a Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo. Participou como bolsista nas edições de 2016 e 2017 do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, sendo orientado por Marin Alsop, Arvo Volmer, Giancarlo Guerrero e Alexander Libreich. Recebeu, nesta última, o Prêmio de Regência, tendo sido convidado a atuar como regente assistente da Osesp em parte da temporada 2018, participando de um Concerto Matinal a convite de Marin Alsop. Foi aluno do Laboratório de Regência da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, sendo convidado pelo maestro Fabio Mechetti a reger um dos Concertos para a Juventude da temporada 2019. Em julho desse mesmo ano, teve aulas com Paavo Järvi, Neëme Järvi, Kristjan Järvi e Leonid Grin, como parte do programa de Regência do Festival de Música de Parnü, Estônia. Atualmente, cursa o bacharelado em Composição pela Universidade de São Paulo.

Programa de Concerto

O Garatuja: Prelúdio | NEPOMUCENO

Tido pela crítica modernista do final da primeira metade do século XX como um arauto do nacionalismo musical brasileiro, Alberto Nepomuceno é conhecido por ser um dos primeiros a empregar sistematicamente elementos do nosso folclore em suas composições. Foi defensor ferrenho das causas republicana e abolicionista, e atuou como diretor do Instituto Nacional de Música e maestro da Associação de Concertos Populares, realizando um trabalho que teve consequências determinantes para a cultura musical do país. Seu grande interesse pela literatura brasileira e pela valorização da canção em língua portuguesa aproximou-o de alguns dos mais importantes escritores da época, como Coelho Netto, Machado de Assis e Olavo Bilac. O Garatuja é uma comédia lírica, baseada na obra homônima de José de Alencar, com libreto do próprio Nepomuceno. Segundo o compositor, trata-se de uma ópera verdadeiramente brasileira quanto à ambientação carioca, ao uso atualizado da língua portuguesa e à valorização dos ritmos populares, com a marcação sincopada do maxixe e do lundu. Nepomuceno dedicou a esse Prelúdio um longo trabalho, concluindo-o em 1904. Sua première ocorreu no mesmo ano, no Rio de Janeiro, sob a direção do autor. Poucos dias antes da morte de Nepomuceno em 1920, O Garatuja foi apresentado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro sob regência de Richard Strauss.

Os compositores eruditos brasileiros do século XIX, em sua maioria, incluindo Alexandre Levy, tiveram parte de sua formação musical realizada na Europa, berço, aliás, dos primeiros lampejos do nacionalismo. O Brasil, mal visto no contexto internacional pela abolição tardia, reagia com preconceito à cultura afro-brasileira e popular. Foi nessa época que surgiram, por todo o país, as associações de concertos, como o Clube Haydn, fundado em São Paulo por iniciativa de Alexandre Levy. Essas agremiações contribuíam para o desenvolvimento e a popularização do nacionalismo musical. Em 1890, Alexandre Levy compôs um grupo de obras nitidamente nacionalistas: o Tango brasileiro para piano, o poema sinfônico Comala e a Suíte Brasileira. No Samba, último movimento da Suíte, o compositor empregou duas melodias – Se eu te amei e Balaio, meu bem, balaio –, ambas do populário da época. Esta última canção, oriunda do Sul do país, fora anteriormente utilizada na peça para piano A Sertaneja, de Brasílio Itiberê (compositor paranaense, 1846-1913). Mais próximo do samba rural e das danças urbanas daquele período (como o maxixe, a polca e o tango brasileiro) do que do samba de morro carioca, o Samba de Levy antecipa o ritmar contínuo dos acompanhamentos da música de salão de Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth e evidencia o ineditismo do uso do folclore em uma obra sinfônica.

Escrita sob encomenda da coreógrafa Agnes De Mille, Rodeio fez sua estreia em 1942 com o Balé Russo de Monte Carlo, recém-chegado aos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. A história se passa no Velho Oeste e acompanha as aventuras de uma cowgirl interpretada por De Mille. Ao lado de Billy The Kid e Appalachian SpringRodeio posiciona Aaron Copland no rol definitivo da composição americana. A trilogia que o tirou do posto de “apenas mais um compositor do século XX” só foi possível após muita reflexão, como relatado no livro Aaron Copland: A Reader: “Eu comecei a sentir uma enorme insatisfação com a relação entre o público amante de música e o compositor. (…) O público convencional de concertos continuou apático ou indiferente a qualquer coisa que não fossem os clássicos já estabelecidos. Minha impressão era de que nós, compositores, corríamos o risco de cairmos num vácuo… Eu senti que valia a pena o esforço de tentar dizer o que eu tinha a dizer da forma mais simples possível”. Usando sua habilidade como um verdadeiro artesão das partituras, sem necessariamente lançar mão de rigor acadêmico, Copland soube incorporar em sua música o espírito das pessoas comuns.

Na década de 1990, Arturo Márquez embarca em uma viagem à cidade mexicana de Veracruz acompanhado pelo pintor Andrés Fonseca e pela dançarina Irene Martínez. Os amigos, dois apaixonados por girar pelos salões, introduzem Márquez à música de baile, principalmente ao danzón – o ritmo tem seu berço em Cuba, mas é parte importante do folclore de Veracruz. De lá pra cá, o compositor escreveu oito danzones, tendo o segundo deles se tornado um clássico moderno da música orquestral latino-americana. Sobre a obra, Márquez disse: “Estava fascinado, e comecei a entender que a leveza aparente do danzón é apenas um cartão de visitas para um tipo de música cheia de sensualidade e seriedade, um gênero que as pessoas mais antigas do México seguem dançando com um toque de nostalgia, como uma fuga eufórica em direção a seu próprio mundo emocional. (...) O Danzon nº 2 é um tributo ao ambiente que sustenta o gênero. Ele se esforça para chegar o mais perto possível da dança, de suas melodias nostálgicas, de seu ritmo selvagem”.

A segunda Bachiana de Villa-Lobos foi composta em 1930. É curioso perceber certa identidade entre alguns aspectos “descritivos”, por assim dizer, dessa obra, e as tendências literárias da ficção brasileira de então. Se nesse momento floresce o romance regionalista em nossa Literatura, é interessante notar os subtítulos que Villa-Lobos atribui a cada um dos movimentos: Canto do Capadócio, Canto da Nossa Terra, Lembranças do Sertão e, sobretudo, O Trenzinho do Caipira. Este último é um dos trechos mais populares de toda a série, talvez só superado pela Ária da Bachianas Brasileiras nº 5. Em O Trenzinho do Caipira, a música criada por Villa lembra o movimento de uma locomotiva, com fortes influências da música sertaneja que ouvia em suas viagens de descoberta pelo interior do país.

27 nov 2022
domingo, 11h00

Sala Minas Gerais, com transmissão ao vivo pelo YouTube
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