Natural de São Paulo, José Soares é Regente Associado da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde 2022, tendo sido seu Regente Assistente nas duas temporadas anteriores. Venceu o 19º Concurso Internacional de Regência de Tóquio (2021), recebendo os prêmios do júri e do público. No Br
... LEIA MAISO enredo de O lago dos cisnes deriva de uma antiga lenda alemã.
Por obra do temível bruxo Rothbart, a princesa Odette e suas companheiras são transformadas em cisnes e só retomam a forma humana da meia-noite ao amanhecer. Durante uma caçada noturna, o príncipe Siegfried se apaixona por ela e planeja livrá-la do sortilégio, com uma declaração de eterno amor. Na noite seguinte, a princesa deverá apresentar-se no castelo onde, em grande festividade, o príncipe anunciará a todo o reino o noivado dos dois.
Entretanto, Rothbard impede o comparecimento da princesa à festa, substituindo-a por sua filha Odile, vestida de cisne negro e transfigurada em sósia da verdadeira princesa (tradicionalmente os dois papéis são interpretados pela mesma bailarina). Burlado pelo ardil de Rothbard, Siegfried declara-se ao cisne negro.
Percebendo seu engano, o príncipe volta ao lago para reencontrar Odette. Os dois apaixonados reafirmam seus sentimentos. Enfurecido diante de tão grande amor, Rothbard ordena ao lago que transborde. Para sempre transformadas em cisnes, as amigas da princesa fogem, enquanto os amantes, preferindo a morte à separação, desaparecem nas águas agitadas.
Para Tchaikovsky, a abordagem da composição musical era antes de tudo um gesto autobiográfico, confessional. Em cartas, ele se refere frequentemente ao Destino (o Fatum) como tema programático central para muitas de suas obras. Quanto a O lago dos cisnes – apesar dos obrigatórios números de danças típicas e divertissements –, o compositor buscou evidentemente um colorido dramático para a partitura.
A Cena inicial apresenta o tema do Destino no oboé, sobre o acompanhamento da harpa e o trêmulo das cordas. Esse tema será desenvolvido com grande dramaticidade pela orquestra, tornando-se um motivo condutor para a ação.
Uma escala descendente em pizzicato das cordas introduz a grande Valsa que abre as festividades no palácio de Siegfried. A rica orquestração valoriza os temas que refletem o entusiasmo dos convidados. Segue-se a Dança dos Cisnes, cuja melodia inicia-se pelo oboé. A curiosa instrumentação valoriza as madeiras, e o ritmo lembra um delicado minueto.
Na próxima cena, a introdução alterna acordes do oboé e do clarinete com os desenhos da harpa. Todo o movimento é dominado por um violino que acompanha o difícil solo de Odette, um dos mais célebres números coreográficos da história do balé.
As danças típicas finais são retiradas da festa de noivado do terceiro ato, quando convidados de vários países dançam seus ritmos característicos.
Independentemente das associações autobiográficas ou literárias de sua gênese, a obra de Tchaikovsky impõe-se por suas qualidades intrínsecas, sobretudo pela beleza melódica, pelo domínio magistral da orquestração e pela prodigiosa intuição do poder expressivo dos instrumentos. Com Tchaikovsky, o balé russo ganhou incomparável prestígio musical no final do século XIX e iniciou uma renovação estética que teve continuidade nas obras de compositores como Rimsky-Korsakov, Stravinsky e Prokofiev.
Paulo Sérgio Malheiros dos Santos
Heitor Villa-Lobos recebeu sua educação musical formal num Rio de Janeiro esteticamente dividido. Leopoldo Miguez, quando assume a direção do Instituto Nacional de Música, em 1890, promove uma estética musical moderna em contraposição ao conservadorismo da tradição operística italiana do bel canto. Para Miguez, moderno seria a música de Richard Wagner e os princípios composicionais de Camille Saint-Saëns. Alberto Nepomuceno, seu sucessor, acirra ainda mais as disputas estéticas ao importar a música revolucionária de Debussy.
Sabe-se muito pouco sobre as atividades de Villa-Lobos entre os anos de 1905 e 1912, seu período de formação. Comprova-se, porém, que, ao retornar ao Rio de Janeiro, vindo de Manaus, Villa-Lobos passou a trabalhar em sociedades de concertos, cinemas e cafés, e envolveu-se com grupos de chorões da cidade. A partir de 1915 dedicou-se mais amiúde à composição. Suas duas primeiras sinfonias, o poema sinfônico O naufrágio de Kleônicos e a opera Izaht, alinham-se à tendência pós-romântica francesa. Segundo o próprio Villa-Lobos, as duas sinfonias foram compostas de acordo com o Curso de Composição Musical de Vincent D’Indy. O poema sinfônico O naufrágio de Kleônicos, por sua vez, revela profunda afinidade com a música de Saint-Saëns. Sua passagem final, transcrita para violoncelo e piano como O canto do cisne negro, é uma óbvia alusão ao Cisne de Saint-Saëns. Ambas as obras apresentam a mesma estrutura: um solo de violoncelo acompanhado de arpejos.
Poucas certezas se têm sobre o texto que inspirou o poema sinfônico. No catálogo de obras de Villa-Lobos, consta que um bailado teria sido extraído do livro Loulou Fantoche: Fantasias de Carnaval, de Léo Teixeira Leite Filho. Sabe-se pelo crítico Medeiros e Albuquerque que Loulou Fantoche traz a “história de uma rapariga cocainomaníaca que, farta de aturar os ciúmes do amante, aproveita uma noite de Carnaval, sai, e tem uma aventura com outro homem”. Na cena que se refere ao naufrágio de Kleônicos, a moça, como uma dançarina pagã, dança ao som de uma orquestra imaginária, vivenciando assim a história do naufrágio. A música de Villa-Lobos acompanha perfeitamente a narrativa, principalmente nos três momentos em que utiliza a melodia do cisne negro.
O marinheiro Kleônicos insiste em navegar pelos turbulentos e tempestuosos mares de outono, entre Kelessyria e Tassos. Quando um cisne negro cruza o céu e as ondas se agitam, anuncia-se um destino fatal. Desesperados, os marujos põem-se a chamar em coro por suas mulheres. Ao pôr do sol o cisne sobrevoa uma vez mais o navio, que se parte em dois, afogando toda a tripulação. Kleônicos, no mar, agarra-se a um remo. O cisne então desce em rasante contra o marinheiro, e na luta a ave se fere. O marujo afoga-se enquanto a ave se agita, se contorce e canta “no grande anseio de quem vai cantar, pela derradeira vez, o mais lindo dos cantos”. O mar faz eco aos soluços da ave e também o faz a bailarina, que, em convulsões, desfalece como pássaro morto.
Igor Reyner
Em 1910, aos 28 anos de idade, Igor Stravinsky escreveu a obra que o tornaria instantaneamente famoso em toda a Europa: o balé O pássaro de fogo. Os Balés Russos, liderados por Sergei Diaghilev, tinham feito seu début em Paris no ano de 1909. Paris vivia seu apogeu cultural e atraía artistas de todas as partes do mundo. Diaghilev mantinha em sua Companhia um grande número de artistas excepcionais. Conseguira reunir nomes que se tornariam lendários na cultura russa, tais como os bailarinos Vaslav Nijinsky, Ida Rubinstein e Anna Pavlova. E, para a temporada de 1910, propôs ao jovem Stravinsky escrever um balé baseado na fábula russa do Pássaro de Fogo.
Segundo a lenda, Ivan Czarevitch, futuro czar, ao perseguir um pássaro maravilhoso, coberto de ouro e fogo, chega aos jardins do terrível Kachtcheï, o Imortal. Sob a árvore das maçãs de ouro, Ivan captura o Pássaro de Fogo, mas decide libertá-lo. O Pássaro lhe dá então uma de suas penas mágicas, com que Ivan poderia chamá-lo quando estivesse em perigo. O Pássaro de Fogo vai embora, a porta do castelo se abre e as treze princesas que viviam cativas saem para brincar. Ivan se esconde e observa. Uma delas, a Princesa da Beleza Sublime, tropeça e cai no arbusto onde Ivan se escondia, e os dois, ao se verem, se apaixonam. As princesas retornam e Ivan, não mais conseguindo viver sem sua amada, tenta entrar no castelo e é capturado pelos guardas. Kachtcheï surge e se prepara para transformar Ivan em pedra. Ele se lembra-se da pena mágica e a agita. O Pássaro de Fogo surge e faz os guardas caírem em sono profundo. Enquanto dormem, o pássaro conta a Ivan o segredo da imortalidade de Kachtcheï: o enorme ovo onde vive sua alma. Ivan destrói o ovo e, com a morte de Kachtcheï, as princesas são libertadas. Ivan e a Princesa Sublime se casam e são coroados czar e czarina.
O balé O pássaro de fogo foi estreado no dia 25 de junho de 1910, na Opéra de Paris, sob a direção do grande Gabriel Pierné, com coreografia de Mikhail Fokin (que também dançou o papel de Ivan) e Tamara Karsavina no papel do Pássaro de Fogo (em substituição a Anna Pavlova, que desistiu do papel-título aparentemente por não ter gostado da música).
Com O pássaro de fogo Stravinsky se tornou célebre da noite para o dia. Porém, julgou que a coreografia não fazia justiça à sua música. Desejoso de mostrar ao mundo a universalidade de sua obra, Stravinsky cria, em 1911, uma suíte orquestral praticamente idêntica à partitura original. Mas, percebendo que, ao transformar um balé em uma obra de concerto, mais modificações deveriam ser feitas, ele recria a partitura e, em 1919, estreia aquela que seria a mais conhecida versão de concerto de O pássaro de fogo. Em 1945 ainda compôs uma terceira versão para concerto, dessa vez bastante fiel à partitura original do balé, a fim de assegurar seus direitos autorais, já que as leis americanas não reconheciam os tratados europeus.
Embora fortemente influenciada pelas obras de Rimsky-Korsakov e pela tradição folclórica russa, a música de O pássaro de fogo prima por uma originalidade sem precedentes na história. Música extremamente imaginativa, com atmosferas inusitadas, ritmos complexos, melodias sugestivas e efeitos orquestrais espetaculares.
Guilherme Nascimento
Encerramos a série Fora de Série com algumas das composições mais celebradas e relevantes da história do balé universal. Exemplo máximo do balé clássico, o adorado O Lago dos Cisnes de Tchaikovsky estabelece um expressivo contraste com a forma dramática com a qual Stravinsky expandiu o gênero nas primeiras décadas do século XX. Completa o programa a leitura de Villa-Lobos para a história do confronto entre um marinheiro e um cisne negro em um mar febril.