Fabio Mechetti é Diretor Artístico e Regente Titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde a sua fundação, em 2008, sendo responsável pela implementação de um dos projetos mais bem-sucedidos no cenário musical brasileiro. Construiu uma sólida carreira nos Estados Unidos, onde e
... LEIA MAISUm dos principais nomes do piano brasileiro, Cristian Budu é vencedor do Primeiro Prêmio e do Prêmio do Público no Concurso Internacional de Piano Clara Haskil (Suíça). Em 2017, a revista britânica Gramophone<
... LEIA MAISNo verão de 1844, Berlioz partiu para uma longa temporada em Nice, no sul da França. Seguindo conselhos médicos, o compositor deixou para trás momentaneamente os problemas pessoais e profissionais que vinham agravando suas crises depressivas. Do alto da torre em que ficou hospedado, ele se pôs a contemplar o Mar Mediterrâneo e sonhar com aventuras que o afastavam ainda mais de seu casamento em colapso e das intrigas da vida musical parisiense.
Dessa experiência nasceu a abertura A torre de Nice, estreada em 1845. Anos mais tarde, Berlioz revisitou a partitura e alterou seu título para O corsário, em homenagem ao poema homônimo de Lord Byron. A obra não possui uma estrutura narrativa, como a Sinfonia Fantástica, mas procura evocar uma paisagem marítima por meio da música. É nesse mar ora revolto, ora sereno, que navega o corsário — figura emblemática do imaginário romântico devido ao seu espírito livre e rebelde, que desafia as normas sociais. Com efeito, sua vida fora da lei é o avesso do cotidiano burguês, tão opressivo para um artista idealista como Berlioz.
Texto de Paulo Sampaio
Compositor e pesquisador, doutorando em Música e Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo
“O que impressiona na leitura dos escritos de Schumann é a sua prodigiosa riqueza em traços contraditórios”, observa André Boucourechliev, seu principal biógrafo. A contradição é a marca da personalidade multifacetada do compositor. Não por acaso, suas obras de juventude são associadas a diferentes pseudônimos — criando, ainda segundo Boucourechliev, “um jogo de espelhos em que o homem busca desesperadamente a si mesmo por meio de miragens inumeráveis”.
Na obra de maturidade de Schumann, essas oposições passam a determinar sua linguagem musical de modo ainda mais profundo. É isso que se escuta logo no início do Concerto para piano: a contraposição direta entre uma introdução brilhante e um tema de caráter intimista. Associado à sua esposa, a pianista e compositora Clara Schumann, esse tema retorna ao longo de toda a obra. Sua onipresença confere ao Concerto um aspecto cíclico, aproximando-o do fluxo musical contínuo de uma Fantasia. Nesse que talvez seja o mais romântico de todos os concertos românticos, Schumann extrapola os esquemas formais clássicos em busca de uma expressividade mais pessoal.
(Texto adaptado de nota de programa de Moacyr Laterza Filho)
Em meados do século XV, São Francisco de Paula partiu em missão pelo sul da Itália. Ao chegar ao Estreito de Messina, que liga a Calábria à Sicília, pediu a um barqueiro que o conduzisse até a outra margem, de onde seguiria sua pregação. Ao perceber que o santo não tinha dinheiro, o barqueiro se recusou a ajudá-lo, zombando de sua pobreza. Sem se exaltar, Francisco estendeu o seu manto sobre as águas e subiu nele como se fosse uma jangada. Milagrosamente, parte do tecido permaneceu rija e sustentou seu peso, enquanto o restante serviu como vela, possibilitando a travessia.
Liszt interpretou essa história como uma celebração do triunfo do espírito sobre a matéria e procurou retratá-la musicalmente na segunda de suas Duas Lendas — a primeira trata de São Francisco de Assis, outro símbolo do ascetismo católico. A obra pertence à fase final de sua produção, na qual o compositor modera seu virtuosismo demoníaco e se volta a temas religiosos. Quando a escreveu, Liszt vivia em Roma e era recebido com frequência pelo Papa Pio IX, a quem deliciava com improvisações ao piano.
Texto de Paulo Sampaio
Compositor e pesquisador, doutorando em Música e Mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo
Em 1880, Tchaikovsky foi convidado a compor uma obra sinfônica para celebrar a Exposição Industrial e Artística de Moscou. A encomenda deu origem a uma de suas composições mais conhecidas, a despeito de sua relutância inicial — “Nada me é mais antipático que compor em função de festividades e afins”, escreveu ele em carta à sua mecenas e confidente, Nadejda von Meck.
A estreia da Abertura 1812, ocorrida em agosto de 1882, não foi tão grandiosa quanto Tchaikovsky gostaria: em vez de ser executada na Praça Vermelha, com tiros de canhões e sinos do Kremlin reforçando a orquestra e o coro, a obra foi apresentada dentro de um pavilhão da Exposição. O título remete ao ano em que teve início a derrocada de Napoleão, com o fracasso da invasão da Rússia. A Abertura evoca musicalmente a batalha, representando os russos por meio do coral ortodoxo “Deus, salva teu povo” e do tema folclórico No meu portão, no meu portão, ao passo que os franceses são representados pela Marselhesa. O duelo das melodias culmina na vitória apoteótica do hino do império russo sobre o hino francês.
(Texto adaptado de nota de programa de Igor Reyner)
O período Romântico foi um dos mais ricos e variados da história da música. Uma de suas grandes contribuições foi a conexão estabelecida entre a música e outras formas de arte, por meio da chamada “música programática”. Um dos pioneiros desse movimento foi Hector Berlioz, que inspirou toda uma geração de compositores, como Liszt e Richard Strauss. O grande pianista brasileiro Cristian Budu retorna ao nosso palco, trazendo um forte contraste com a interpretação de um dos concertos mais famosos do repertório.