Concertos Comentados com o violinista da Filarmônica, Rodrigo Bustamante. Às 19h30, no foyer do segundo andar.
Fabio Mechetti é Diretor Artístico e Regente Titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde a sua fundação, em 2008, sendo responsável pela implementação de um dos projetos mais bem-sucedidos no cenário musical brasileiro. Construiu uma sólida carreira nos Estados Unidos, onde e
... LEIA MAISA linguagem de Shostakovich descende de um conjunto de tendências que começaram a despontar na música sinfônica após a efervescente turbulência – pródiga em originalidade, em experimentações e na descoberta de novas orientações estéticas – que marcou o início do século XX. Entre os anos 1920 e 1950, principalmente, pode-se dizer que houve uma espécie de “chamada à ordem” sobre a “insolência” criativa de nomes como Debussy, Stravinsky e Webern; um retorno aos princípios composicionais fundamentais dos tempos de Haydn, Mozart e Beethoven. A esse movimento dá-se o nome de “neoclassicismo”.
Situadas no período entre guerras, as tendências neoclássicas na música podem ser entendidas também como uma reação às profundas consequências sociais e políticas que trouxeram a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), de um lado, e a Revolução Russa (1917), de outro. Na recém-formada União Soviética, surgem nomes como Prokofiev, que, confessadamente neoclássico e grande melodista, trouxe a linguagem moderna mais próxima da sensibilidade popular, e Shostakovich, que o sucedeu e se firmou igualmente como um dos maiores representantes da Escola Soviética.
Além do contexto musical em que está imerso e de suas predileções pessoais, outro fator parece ter norteado fortemente as opções estéticas de Shostakovich: as pressões do Partido Comunista, então em pleno regime stalinista. Após as duras críticas a seus primeiros trabalhos, foi somente a partir de sua Quinta Sinfonia, composta em 1937, que ele começou a desenvolver uma linguagem que, aceita pelo Partido, lhe valeu o elogio de “verdadeiro artista soviético”.
Das quinze sinfonias escritas por Shostakovich, a Sétima, estreada em 1942, tornou-se extremamente popular, tanto na Rússia quanto no Ocidente, como símbolo de resistência ao Nazismo. Trata-se da sinfonia mais longa do compositor, e aí é nítida a recuperação de algumas de suas fontes principais: Mahler, Bruckner e Stravinsky. Talvez por isso, a despeito de seu sucesso, a crítica e o meio musical no Ocidente não a tenham recebido bem, taxando-a, inclusive, de excessivamente emocional, em detrimento da coerência sinfônica.
De fato, Shostakovich lança mão de “imagens musicais” que, estilizadas, aproximam a obra de um realismo quase pictórico que não é avesso ao gosto da estética soviética: fanfarras, marchas, ostinatos e citações de temas folclóricos. Além disso, a obra, dedicada a Leningrado e composta no ano em que teve início o sítio de 900 dias a essa cidade pelas tropas nazistas, é polvilhada de temas que, à parte a sua função estrutural, também aderem a essa concepção quase realista de uma música que nasce no seio dos horrores da guerra. O famoso “tema da invasão”, no primeiro movimento, foi concebido pelo autor como o “tema de Stalin”. Mais tarde, porém, foi tomado como um tema “anti-hitlerista”.
Em seu livro de memórias, controversamente escrito e publicado pelo amigo Solomon Volkov, Shostakovich afirma que não entende a sua Sétima Sinfonia necessariamente como um tributo antibélico, mas sim como uma homenagem à grandeza de sua cidade natal e ao modo como as pessoas de Leningrado sempre continuaram a tocar a vida, mesmo diante das tragédias impostas pelos anos de guerra ou pelo próprio regime soviético.
Seja encarada como retrato da perplexidade ante as barbaridades da Segunda Guerra Mundial, seja tomada apenas como música, não necessariamente atrelada a qualquer temática extramusical, é inegável que essa obra está imbuída da mentalidade contraditória e conflituosa que norteou, e ainda norteia, o homem de nossos tempos.
Encerrando as séries Presto e Veloce, assim como as celebrações dos 50 anos da morte de Shostakovich, a Filarmônica apresenta, pela primeira vez na Sala Minas Gerais, sua triunfal e histórica Sétima Sinfonia, escrita durante o cerco de Leningrado na Segunda Guerra Mundial. Obra de grande força e intensidade, é raramente executada nas salas de concerto. Uma oportunidade única de vivenciar uma das experiências mais impressionantes da temporada.