Um dos mais importantes nomes do violino brasileiro, Guido Sant’Anna, retorna à Sala Minas Gerais para interpretar junto à Filarmônica de Minas Gerais o Concerto para violino em formas brasileiras, de Hekel Tavares. O maestro associado da Orquestra, José Soares, nos conduz por paisagens marítimas com duas célebres aberturas de Felix Mendelssohn e interlúdios da ópera Peter Grimes, em celebração aos 50 anos da morte do compositor inglês Benjamin Britten. As apresentações serão realizadas nos dias 6 e 7 de agosto, às 20h30, na Sala Minas Gerais. Os ingressos estão à venda no site www.filarmonica.art.br e na bilheteria da Sala Minas Gerais, a partir de R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia).
Este projeto é apresentado pelo Ministério da Cultura por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Patrocínio: Itaú Unibanco. Apoio: Programa Amigos da Filarmônica. Realização: Instituto Cultural Filarmônica, Funarte 50 anos, Ministério da Cultura.
Maestro José Soares, Regente Associado da Filarmônica de Minas Gerais
Natural de São Paulo, José Soares é Regente Associado da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde 2022, tendo sido seu Regente Assistente nas duas temporadas anteriores. Venceu o 19º Concurso Internacional de Regência de Tóquio (2021), recebendo também o prêmio do público. Em 2026, estreia como convidado da Orquestra Sinfônica de Campinas, e rege concertos com as sinfônicas Brasileira e de Porto Alegre, e com a Camerata Antiqua de Curitiba. Nas temporadas de 2023 a 2025, regeu a New Japan Philharmonic, a Sinfônica de Hiroshima, a Filarmônica de Nagoya e a Filarmônica da Cidade de Tóquio, no Japão, bem como a OSESP, as sinfônicas do Paraná e da Universidade Estadual de Londrina, a Orquestra de Câmara de Curitiba, as sinfônicas Jovem de São Paulo e do Rio de Janeiro e a Academia Jovem Concertante, no Brasil. Em 2022, regeu a Sinfônica NHK, em Tóquio, e a Sinfônica MÁV, em Budapeste. Soares é responsável pela gestão da plataforma educacional da Filarmônica de Minas Gerais, atuando no planejamento e na coordenação da Academia Filarmônica, de Concertos Didáticos e Ações Educativas da orquestra.
Bacharel em Composição pela Universidade de São Paulo, iniciou-se na música com sua mãe, Ana Yara Campos. Estudou com o maestro Claudio Cruz e teve aulas com Paavo Järvi, Neëme Järvi, Kristjan Järvi e Leonid Grin. Foi orientado por Marin Alsop, Arvo Volmer, Giancarlo Guerrero e Alexander Libreich no Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Pelo Prêmio de Regência recebido no festival, atuou como Regente Assistente da Osesp na temporada 2018. Soares foi aluno do Laboratório de Regência da Filarmônica e convidado pelo maestro Fabio Mechetti a reger um dos Concertos para a Juventude da temporada 2019.
José Soares foi indicado duas vezes à Premiação da Revista Concerto, sendo eleito pelo júri como Jovem Talento em 2021, e integrou a lista Forbes Under 30 na edição de 2024.
Guido Sant’Anna, violino
Nascido em São Paulo, em 2005, iniciou seus estudos de violino aos cinco anos de idade, estreando como solista dois anos mais tarde. Em 2018, tornou-se o primeiro violinista brasileiro a ser convidado para o Concurso Internacional Yehudi Menuhin, em Genebra, onde conquistou o prêmio do público e o de música de câmara. Em 2022, tornou-se o primeiro violinista sul-americano a vencer o prestigioso Concurso Internacional de Violino Fritz Kreisler, em Viena. Apresentou-se com a Sinfônica da Rádio de Frankfurt e a Filarmônica de Câmara Alemã de Bremen, em eventos como o Festival de Música de Rheingau e em palcos como os da Elbphilharmonie de Hamburgo e da Konzerthaus Berlin. Em 2025, lançou pela Naxos sua primeira gravação em estúdio, com a Osesp, sob a regência de Thierry Fischer. Estuda atualmente na Academia Kronberg, na Alemanha, na classe de Mihaela Martin, com o apoio de Margareta e Steffen Rabus. Em 2022, foi incluído na lista “30 Under 30” da Forbes Brasil. Toca um violino de 1874 fabricado por Jean-Baptiste Vuillaume, generosamente cedido pelo luthier Marcel Richters.
Repertório
Felix Mendelssohn (Hamburgo, Alemanha, 1809 – Leipzig, Alemanha, 1847) e a obra A Gruta de Fingal, op. 26 (1830)
Aos 20 anos e já com sólida carreira musical em Berlim, Mendelssohn decide empreender uma turnê pela Itália, França e Inglaterra. Em abril de 1829, chega a Londres e, no final de julho, parte para a Escócia, onde, em 7 de agosto, aporta nas ilhas Hébridas. No dia seguinte, visita a gruta de Fingal, na inabitada ilha de Staffa. Com aproximados 11 metros de altura e 69 metros de comprimento, a caverna é conhecida por suas coloridas colunas de basalto que se impõem ante o mar. “O mais refinado objeto na natureza”, segundo o compositor, ela o inspira de tal forma que, em carta à irmã Fanny, ele esboça os 21 primeiros compassos de sua abertura após dizer: “para fazer você entender quão extraordinariamente as Hébridas me afetaram, o trecho seguinte veio em minha mente por lá”. Aliando “musicalidade imagética” e primazia técnica, a obra só seria finalizada em Roma, no dia 16 de dezembro de 1830 — coincidentemente o único dia no ano em que a incidência de luz solar tem a angulação necessária para a completa iluminação da gruta. Estreada em Londres pelo próprio compositor em 14 de maio de 1832, foi publicada em 1835 sob o título A gruta de Fingal, depois de revisões e de seu título oscilar entre “A ilha solitária” e “As Hébridas”.
Hekel Tavares (Satuba, Brasil, 1896 – Rio de Janeiro, Brasil, 1969) e a obra Concerto para violino em formas brasileiras nº4, op.107 (1962)
Hekel Tavares se interessou logo pelas linguagens musicais populares, tendo crescido cercado pela música dos reisados e dos cantadores de desafios e repentistas de Maceió — tradições que atravessam seu Concerto para violino e orquestra “em formas brasileiras”, op. 107, nº 4, dedicado à escritora Martha Dutra Tavares, sua esposa. Uma leitura do compositor de três importantes gêneros musicais brasileiros, essa obra reflete tanto seu domínio da tradição de concerto quanto sua atuação como arranjador e compositor — é autor de mais de 150 canções populares. Como demonstra o diálogo sentido entre solista e clarinete logo no início do concerto, “Modinha” alude a uma das principais raízes da música popular brasileira: um tipo de canção essencialmente amorosa, de melodias lamentosas, que era acompanhada por viola dedilhada, violão ou piano. Fazendo menção a um gênero de louvor executado pelos tocadores de rabeca nordestinos às portas das igrejas durante funções religiosas, “Louvação” contrapõe um coro de metais, eco de um órgão de igreja, a um solista que se desdobra para soar como um duo de rabequeiros. “Ponteio” — palavra que, segundo Guerra-Peixe, seria uma corruptela de ponteado — evoca, por fim, os prelúdios tocados para “dar o tom” dos cantos versificados e desafios, bem como as partes instrumentais que enriquecem os improvisos dos poetas e permitem aos cantadores descansar.
Felix Mendelssohn (Hamburgo, Alemanha, 1809 – Leipzig, Alemanha, 1847) e a obra Mar calmo e próspera viagem, op. 27 (1828 l revisão 1834)
Grande admirador de Goethe, Beethoven encontrou-se pessoalmente com o escritor em 1812. Como reverberação do encontro, em 1815, compôs em sua homenagem Mar calmo e próspera viagem, op. 112, uma breve cantata para coro e orquestra inspirada em dois de seus poemas. Anos mais tarde, em 1828, esses mesmos poemas serviram de inspiração a Felix Mendelssohn, que a partir deles criou a abertura orquestral Mar calmo e próspera viagem, op. 27. Escrita na mesma tonalidade da cantata de Beethoven, Ré maior, a obra de Mendelssohn divide-se, como a obra de Beethoven, em duas seções contrastantes. O “Adagio” estático, que se desenrola de forma lenta e lúgubre, traduz em música a atmosfera do poema “Mar calmo”, no qual um marinheiro observa angustiado a calmaria que priva sua nau dos ventos que a fariam navegar: “O nauta, imerso noutro mar de mágoas,/os olhos tristes e úmidos passeia/ pela tranquila quietação das águas”. Prenunciando a chegada dos ventos, um motivo repetido na flauta encerra a seção. Radicalmente contrastante, a segunda parte da abertura retrata em som o segundo poema: “Próspera jornada”. Nele, os ventos voltam a soprar, fazendo com que as ondas se repartam e o navio se mova veloz rumo à terra, que, avistada finalmente no último verso do poema, é anunciada na obra de Mendelssohn pela fanfarra de trompetes.
Benjamin Britten (Lowestoft, Inglaterra, 1913 – 1976) e a obra Peter Grimes: Quatro interlúdios marítimos, op. 33a (1944-1945)
A música de Britten usa das conquistas do século XX sem rigores escolásticos ao mesmo tempo em que preza pela tradição musical. Disso resulta uma linguagem a um só tempo moderna e acessível, sem o hermetismo intelectual de certas correntes que lhe são contemporâneas. De sua obra nada pequena, mais da metade é dedicada à música vocal — apesar de ter sido um grande pianista. Nela, somam-se nada menos do que 16 óperas, sendo Peter Grimes sua primeira ópera séria. Britten residia nos Estados Unidos quando leu pela primeira vez The Borough, do poeta inglês George Crabbe (1754–1832), obra ambientada na costa da região inglesa de Suffolk (onde o compositor nasceu) e que inclui “Peter Grimes”, o poema narrativo que conta a história de um pescador acusado de ter matado seu aprendiz. De volta à Inglaterra, em 1942, Britten dedicou-se à composição de uma ópera inspirada no poema. Estreada em Londres, em 1945, Peter Grimes tornou-se o primeiro grande triunfo da carreira de Britten. Da ópera, foram publicados à parte a Passacaglia, op. 33b, e os Quatro interlúdios marítimos, op. 33a, que frequentemente são executados como uma suíte orquestral — juntos ou não à Passacaglia.