|    1 out 2015

Música que segue

Maestro Fabio Mechetti faz uma breve avaliação do nosso primeiro ano na Sala Minas Gerais e compartilha algumas ideias para o futuro próximo, a Temporada 2016.

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A Filarmônica completa sua primeira temporada na Sala Minas Gerais. Como o senhor avalia esse momento?

Os músicos, já na primeira semana na Sala Minas Gerais, aprenderam a se adaptar ao som do novo espaço, mas ainda há ajustes. Estamos avançando no trabalho de articulação, balanço, equilíbrio, e estou seguro de que a Filarmônica, tecnicamente, evoluiu muito em relação aos anos anteriores.

 

Os concertos de assinatura saltaram de 24 em 2014 para 57 em 2015. As demais apresentações, como Concertos para a Juventude, Didáticos, Laboratório de Regência, Festival Tinta Fresca e extras totalizam 73 concertos na Sala Minas Gerais. Isso impactou a Filarmônica de alguma maneira?

O que faz uma orquestra ser considerada grande, no sentido qualitativo amplo, é o fato de ela conseguir tocar bem não apenas um dia, mas sempre, a todo concerto. Com a ampliação do número de apresentações, a Filarmônica tem tido a oportunidade de medir isso. Ou seja, para alcançar a consistência de grande orquestra, a repetição dos concertos tem possibilitado aos músicos observarem suas performances e investirem no seu aprimoramento para o dia seguinte. E esse processo individual tem reflexo positivo no grupo orquestral.

 

Vários concertos da Temporada 2015 tiveram seus ingressos esgotados. O senhor esperava essa adesão por parte do público?

Esperava, pela novidade da Sala e pelo fato de termos aumentado a oferta de opções de concertos. Mas, fundamentalmente, porque o público, há anos, tem expressado seu apoio ao programa cultural desenvolvido pela Orquestra, em sua programação e na qualidade do que a gente apresenta.

 

A consolidação de audiência está diretamente ligada à programação?

Nossa programação, em sete anos, é muito mais vasta que os trinta anos em que trabalhei nos Estados Unidos. Não estou dizendo que todo mundo gosta de tudo, mas acho que as pessoas entendem que isso está sendo feito em benefício do projeto de uma orquestra que em seu próprio nome traz a noção de diversidade.

Temos um público muito sensível. Ele sabe que está semeando algo importante. Estão felizes porque colheram a Sala Minas Gerais, sem dúvida a melhor do Brasil. Na música erudita, a Filarmônica resgatou o sentimento de orgulho para quem gosta de cultura em Minas Gerais.

 

A existência de uma sala de concertos é uma novidade na vida cultural de Minas Gerais. Pela sua experiência, o espaço adequado é definidor para a incorporação da música de concerto na vida de uma comunidade? Com a Sala, a Filarmônica está conquistando novos públicos?

Quando conto, nos Estados Unidos e Europa, que conseguimos, em Minas Gerais, aumentar o número de assinantes em 57% de um ano para o outro, as pessoas me interrompem e dizem: – Em uma década, você quer dizer? (risos). A evolução de uma orquestra é prova de que cultura é um processo. Não é um concerto aqui, outro ali que vai mudar a sociedade. Mas você trabalhando continuadamente, mostrando serviço e qualidade, aí sim as pessoas se sensibilizam, se transformam.

 

Qual a atual situação das grandes orquestras no mundo?

Vou começar pela Europa. A Orquestra Sinfônica de Roma, a única totalmente privada daquela cidade, foi à falência dois anos atrás. A RAI, uma empresa estatal de rádio e televisão da Itália, tinha orquestras em várias cidades do país. Hoje só tem em Torino e Milão. Na Espanha, as orquestras menores também estão acabando. Portugal, nem se fala. França, diminuindo. Na Alemanha houve várias fusões. Embora seja esta a atual realidade na Europa, é impressionante observar o empenho de governos de países como Alemanha e Inglaterra na manutenção de 300 orquestras, enquanto no Brasil temos apenas vinte.

E aí é bom lembrar que não existe diferença artística ou administrativa entre filarmônicas e sinfônicas. O que existe é um modelo de financiamento norte-americano, essencialmente privado, e um modelo de financiamento público, historicamente europeu. Nos Estados Unidos temos as filarmônicas de Nova York e de Los Angeles, assim como as sinfônicas de Boston e de Chicago, todas elas privadas. E na Europa temos as filarmônicas de Berlim e de Viena, pesadamente subsidiadas pelos governos de suas respectivas cidades.

O que acho importante salientar é que na Europa – e nos últimos anos no Brasil – ficou evidente que o governo sozinho não conseguiria manter instituições culturais. Por isso, foram abertos caminhos híbridos de financiamento, com a crescente participação da iniciativa privada. Mesmo assim, as filarmônicas de Berlim e de Viena, por exemplo, após dois séculos de existência, têm ainda mais do que 60% uma, 75% a outra, de participação do governo.

Já nos Estados Unidos, justamente pela falta de consistência do financiamento, que varia muito com a economia, as orquestras estão acabando. Muitas foram à falência nos últimos anos. E cortam-se salários. Mesmo as grandes orquestras, como Pittsburg, Cleveland, Filadélfia, cortaram os salários em 20%, 30%.

 

Essa situação também se verifica na Ásia?

Temos que tomar esta análise por regiões. No Japão, tirando a orquestra da TV NHK e a Metropolitan de Tóquio, que é municipal, as demais têm o modelo de financiamento privado. Na região de Hong Kong o modelo é prioritariamente estatal. E também na Malásia, Singapura e em outras orquestras chinesas, como em Macau.

Onde há um grande rebuliço orquestral é na região dos países árabes. Creio que é porque orquestras são vistas como veículos de cultura, capazes de ampliar a identidade cultural daqueles países.

Coube ao Japão, logo após a 2ª Guerra Mundial, dar início a essa aproximação com a cultura ocidental. Hoje eles contam com um grande número de músicos de alta qualidade – as orquestras japonesas são majoritariamente compostas por músicos japoneses, têm excelentes compositores e contam com sete orquestras profissionais somente em Tóquio. Todas lotadas e tocando quase todos os dias da semana. Ou seja, eles criaram uma tradição de se ir a concertos.

 

O Instituto Cultural Filarmônica está submetendo à Lei Rouanet duas novas iniciativas: Academia Filarmônica e Orquestra Filarmônica Jovem. O que são?

São projetos importantíssimos que estão nos nossos planos desde 2011. No Brasil não temos número suficiente de músicos qualificados para algumas posições de orquestra. O que fazer? Esperar que o sistema educacional brasileiro consiga dar esta formação ou ajudar o próprio sistema, criando a Academia? Com a Academia, você acolhe os jovens talentos que estão por aí, habilitados e pensando seriamente na carreira, e viabiliza os instrumentos necessários para que eles possam desenvolver a aptidão de serem músicos profissionais de orquestra. A ideia é que nossos músicos sejam os professores dos estudantes da Academia. Esses estudantes, que entram via audições por já terem um certo domínio do instrumento, serão os chefes de naipe da Orquestra Jovem. Os músicos de seção da orquestra, por sua vez, são jovens instrumentistas que aqui terão a oportunidade de aprimorar suas técnicas. Ou seja, a Orquestra Jovem é o celeiro onde tudo isso vai se desenvolver. É um processo demorado, que exige um grande empenho por parte dos jovens. Por isso, eles precisam receber uma bolsa de estudos, para que possam se manter e se concentrar nesse trabalho e permitir a perpetuação do ciclo do conhecimento em que todos aprendemos e ensinamos, já a partir de 2016.

 

E os concertos da Temporada 2016?

Nesta segunda temporada na Sala Minas Gerais iremos revisitar algumas obras sob uma nova perspectiva, a de uma orquestra que avançou em técnica e está construindo sua sonoridade. Para os que nos acompanham há mais tempo, a Quarta de Brahms vai soar como nova, tenho certeza. Na série Fora de Série, sempre com o intuito de fazer um mergulho em determinado tema e com isso aprimorar nossa escuta, vamos trabalhar a obra de Mozart.

Nossos músicos estão extremamente comprometidos com a excelência musical. Sinto um orgulho cada vez maior em participar desse trabalho e percebo esse mesmo orgulho no público que nos acolhe. Nossa Sala Minas Gerais deu certo, é excelente; teremos, entre séries de assinatura e as demais apresentações, cerca de cem concertos em 2016. Então, o que mais me alegra e que quero compartilhar com o público são esses momentos de extrema beleza, momentos de reverência à arte musical.

 

O que são os Concertos Comentados anunciados para 2016?

Na série Fora de Série, iremos comentar as obras no próprio palco. Caberá a mim e aos demais regentes fazer uma abordagem do repertório do dia.

Mas chamamos de Concertos Comentados a uma proposta específica para as séries Allegro, Vivace, Presto, Veloce. São palestras que acontecerão antes dos concertos, concebidas em função do repertório da noite, mas buscando perspectivas diferentes.

 

Os Concertos para a Juventude, com seu programa de formação de público baseado na obra de seis compositores, foram muito bem acolhidos pelo público em 2015. Qual a proposta para 2016?

Em 2016 queremos ir um pouco além e propomos trabalhar as estruturas utilizadas pelos compositores em suas obras, as formas musicais – Danças, Poemas sinfônicos, Forma Sonata, Forma ABA e as Formas livres. Nosso propósito é que o público jovem vá, pouco a pouco, num processo continuado de formação, compreendendo porque as obras são construídas de uma determinada maneira. Quanto mais você conhece, mais interessante se torna a aproximação com a música.

 

A Sala Minas Gerais tem tido um papel importante na adesão do público à programação da Orquestra Filarmônica?

Creio que sim, porque o público está identificando uma com a outra. Ou seja, o público reconhece que a orquestra e sua sala são um único instrumento. Sendo assim, elementos indissociáveis, ambos têm que ser de excelência se quiserem manter altos níveis de audiência. Nossa Sala é fantástica e nossa Filarmônica é ótima. Precisamos investir, governo, iniciativa privada e sociedade civil, para que ela possa dar os frutos pelos quais todos nos empenhamos.

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