Concerto para piano nº 1, em lá menor, op. 78, “Fantástico”

Isaac Albéniz

(1887)

 

Instrumentação: 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, tímpanos e cordas.

 

Interlúdios sonhadores de piano solo e ingênuas melodias redobradas em sonoros acordes dão o tom ultrarromântico do Concerto Fantástico de Albéniz, concluído e estreado em 1887. Nele, o modelo estrutural do primeiro movimento é tratado com simplicidade, cedendo lugar a momentos fantasiosos e contemplativos. Iniciado em 1885, o Concerto Fantástico é o primeiro concerto para piano de Albéniz e para ele confluem os estilos concertantes de Schumann, Grieg e Chopin, não havendo nenhuma referência à música espanhola. Albéniz utilizou o autêntico folclorismo de seu país em sua outra obra para piano e orquestra, a Rapsódia Espanhola, composta à mesma época. O Concerto Fantástico foi dedicado ao discípulo de Albéniz, José Tragó, eminente pianista e futuro professor dos pianistas-compositores espanhóis Manuel de Falla, Joaquín Turina e Enrique Granados. A obra teve sua estreia em Madri sob a regência de Tomás Bretón, também responsável pela orquestração do concerto.

 

A vida romanesca de Albéniz é repleta de fatos discrepantes ou exagerados pela maior parte de seus biógrafos. Extraordinariamente precoce, ele deu seu primeiro recital aos quatro anos. Sua fuga clandestina para a Argentina, aos sete anos, é uma das mais famosas invenções a seu respeito, uma vez que seu pai o levara pessoalmente em suas viagens como funcionário da alfândega espanhola. Conta uma anedota que, aos sete anos, Albéniz teria sido recusado no Conservatório de Paris não pela pouca idade, mas por ter quebrado lá um espelho ao brincar com uma bola, desmerecendo seu excelente teste de aptidão. É certo, no entanto, que, após excursionar pela América Central e pelos Estados Unidos, retornou para a Europa e foi aceito no Conservatório de Leipzig, aos quatorze anos. Dúvidas cercam a veracidade de seu encontro com Franz Liszt, ocorrido em Budapeste por volta de 1880 e narrado por Albéniz em seu diário. Se Liszt visitou a Hungria 26 vezes e à época lecionou piano na suíte do Hotel Hungaria de Budapeste – para o qual foram cedidos dois pianos Bösendorfer de cauda –, é bem provável que o encontro tenha se sucedido efetivamente. De todo modo, é notória a influência estética de Liszt sobre a primeira geração romantizada da escola nacional espanhola, representada pelo pianismo de Albéniz e Granados.

 

Parece não haver consenso entre os pianistas sobre a primeira participação do piano no movimento inicial (Allegro ma non troppo): alguns intérpretes ignoram a indicação do compositor de esperar dezoito compassos, quando dobram os fortíssimos da orquestra, e só iniciam a tocar após trinta e dois compassos, em suave solo de piano. O segundo movimento (Andante) obteve grande sucesso nas estreias em Londres e Paris, realizadas pelo próprio Albéniz ao piano. Foi o único movimento que recebeu título do compositor – Rêverie et Scherzo –, traduzível como sonho e brincadeira. No movimento final (Allegro) reaparecem as dramáticas oitavas iniciais do concerto. Logo, o solista introduzirá uma charmosa valsa que ora ou outra ressurgirá até o breve e arrebatado final.

 

Marcelo Corrêa
Pianista, Mestre em Piano pela Universidade Federal de Minas Gerais, professor na Universidade do Estado de Minas Gerais.

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