|    16 jun 2020

Maestro indica: “Concerto para violoncelo em si menor, op. 104” de Dvorák

A perfeição do violoncelo de Dvorák e Rostropovich

Antonín DVORÁK │ Concerto para violoncelo em si menor, op. 104

A perfeição do violoncelo de Dvorák e Rostropovich

Por Fabio Mechetti

Dvorák representa a escola nacionalista que passou a predominar na música europeia na segunda metade do século XIX. Com a desintegração dos grandes impérios, o sentido de identidade do indivíduo com a região onde nasceu, cresceu e floresceu se torna cada vez mais profundo: Chopin com a Polônia explorada e revolucionária; Liszt e, em menor papel, Brahms com a Hungria; Borodin e Korsakov com a Mãe Rússia.

Com um folclore rico e musicalmente inspirador, a região onde Dvorák atuou lhe ofereceu um enorme material que ele veio a utilizar em muitas de suas sinfonias, rapsódias e, especialmente, em suas Danças Eslavas. Mas talvez sua obra-prima, lembrando aqui de que tudo não passa de uma opinião individual, seja o belíssimo, inspiradíssimo do começo ao fim, complexo e desafiador Concerto para violoncelo.

Trata-se de obra de um Dvorák bastante maduro artisticamente, onde forma e conteúdo unem-se para expressar total domínio técnico e criativo num Concerto que se tornou, até hoje, o “grande” concerto para violoncelo e orquestra de todo o repertório para este instrumento.

Em de seus típicos três movimentos, Dvorák aplica sua absoluta competência em unir elementos regionais eslavos a um formalismo clássico, mas não engessado, que dá sustentação absoluta à obra e um virtuosismo singular e inédito até então para o violoncelo.

A perfeição criativa representada nesta peça exige de seu intérprete igual perfeição. Embora este seja um dos concertos mais tocados por todos os virtuoses do instrumento e pelas mais variadas orquestras, não acredito que haja exemplo mais definitivo do que a interpretação daquele que considero o maior violoncelista de todos os tempos, Mstislav Rostropovich.

Tive a honra de ser seu assistente na Orquestra Sinfônica Nacional de Washington, onde pude conviver diariamente com um dos grandes gênios da história da música e, com ele, tentar aprender a lidar com a seriedade e integridade que o fazer musical exige. Slava, como era carinhosamente chamado, além de incomparável violoncelista, foi responsável por encomendar quase todo o repertório para esse instrumento durante o século XX. A ele devemos, dentre outras obras, os concertos de Shostakovich, Britten, Prokofiev, Duttileux, Penderecki e Khatchaturian.

Na gravação recomendada abaixo, essa mesma integridade encontra em Carlo Maria Giulini e a Filarmônica de Londres parceiros ideais.

A imagem que ilustra este post é uma foto de Jan Nepomuk Langhans, 1904.

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