|    4 jun 2020

Maestro indica: “Prelúdio para ‘A tarde de um fauno’” de Debussy

O fauno de Debussy nas mãos de Celibidache

Claude DEBUSSY – Prelúdio para “A tarde de um fauno”

O fauno de Debussy nas mãos de Celibidache

por Fabio Mechetti

Em sua maioria, as revoluções são agitadas, provocadoras, intensas e até violentas. Mas algumas delas ocorrem da maneira mais sutil e imperceptível. A “revolução” dos direitos humanos de Martin Luther King, por exemplo, ou Gandhi, na Índia; ambos pregavam uma ruptura do status quo através da paz.

Na música temos também bons exemplos. Berlioz e Stravinsky romperam barreiras de maneira imperdoável. Mas, quem diria que a música do século XX teria início no som mais terno e convidativo de uma só flauta? Foi assim que, em 1894, a música para um balé de Nijinsky veio abrir as portas de uma nova era para a linguagem musical.

Nas últimas décadas do século XIX, alguns compositores, como Wagner, Liszt, César Franck, começaram a utilizar recursos harmônicos e melódicos baseados não nas escalas tonais normais, mas sim na escala cromática (ou escala de semitons), deslanchando assim uma desintegração gradual do sistema tonal vigente, aquele sistema baseado nas escalas maiores e menores que definiram a música ocidental por mais de três séculos. Do outro lado, o francês Claude Debussy se aproveita da utilização crescente do cromatismo e acrescenta uma nova “ideia” sonora, não a de semitons, mas a de tons inteiros, iniciando assim a aplicação consciente da escala hexafônica (Dó-Ré-Mi-Fá#-Sol#-Lá#). Mais do que no papel, na escuta, essa escala passa a expressar uma nova realidade: a do infinito, algo que não tem fim nem começo, produto primordial do vazio.

O início do curto balé Prelúdio para “A tarde de um fauno”, exposto por uma flauta solo contornando uma melodia com a união da escala cromática com a hexafônica, e oferecendo material para uma nebulosa sustentação harmônica que vem logo a seguir com as cordas e as trompas, é de tal maneira inovador que, apesar de sua simplicidade e singeleza quase inaudível, choca.

Nessa peça emblemática de fim de século, vivemos num mundo de tranquila fantasia, transparência e pureza. Talvez Kundera a definisse como a “Insustentável leveza do som”. Nunca na história da música uma revolução iria acontecer de maneira tão quieta, despretensiosa e pacífica.

Essa dimensão do tempo psicológico, que só a música tem a capacidade de manifestar, recebe nas mãos do regente romeno Sergiu Celibidache um tratamento especial. Celibidache representa, na história da regência, o “defensor” máximo do papel do regente como filósofo: aquele que busca na música a prova conclusiva da possibilidade da metafísica no mundo real. Escutar suas interpretações e gravações, por mais controversas que elas possam ser, é uma experiência sensorial absoluta, e aqui, neste concerto ao vivo com a Filarmônica de Munique, essa oportunidade é completamente realizada.

A imagem que ilustra este post é uma fotografia da Tully Potter Collection. Autor e ano desconhecidos.

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